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Como se veste um toureiro

Como se veste um toureiro

Palmira Horta é uma estilista muito especial

Costura o calção de um forcado com a mesma facilidade com que borda a ouro a jaqueta de cavaleiro ou confecciona o traje de um toureiro. É no ateliê de Palmira Horta que são forjadas as mais genuínas peças do mundo taurino. No dia 7 de Maio um desfile da estilista abre a tradicional feira de Azambuja.

Edição de 30.03.2005 | Sociedade
Debruçada sobre a longa mesa de trabalho, no seu atelier no centro de Azambuja, Palmira Horta cose artisticamente os botões nos calções de um forcado da vila. A agulha serve-lhe de medida para calcular a distância entre cada um. O pormenor parece acessório, mas é o que confere rigor à peça. Palmira Horta é uma das poucas estilistas em Portugal a dedicar-se à confecção de trajes tauromáquicos. A experiência e a vocação permitem-lhe cortar um fato de uma assentada. O toureiro que a procura veste o traje quase já pronto. Ficam a faltar os botões e os acabamentos finais.“A Palmira Horta apanhou as linhas mestras de como se produz o fato de toureio a pé. Em Portugal é a única a fazer este tipo de trabalho com este rigor”, assegura o professor da Escola de Toureio de Azambuja, Carlos Alberto Pimentel.A missão da estilista é de grande responsabilidade. Na arena não há lugar para falhas. Nenhum movimento do toureiro pode ficar preso. Por baixo da calça do homem que enfrenta o touro na arena, impecavelmente justa, há uma segunda calça. O forro feito de algodão puro deve fazer assentar o fato sem o fazer oscilar. “O fato é a pele do toureiro”, sublinha a estilista, 53 anos, natural de Azambuja. Palmira Horta não sabe explicar como consegue este efeito em todas as peças. “Há um namoro muito grande entre mim, a tesoura, a mesa, a máquina de costura e o ferro de engomar”.Malafaia, Pedro Paulino, Paulo Sérgio e Duarte são alguns dos toureiros que Palmira Horta vestiu em 2004. Para mostrar a arte de quem trabalha os trajes para o mundo da tauromaquia a estilista está a organizar um desfile com a colaboração da autarquia que irá abrir os festejos da tradicional Feira de Maio. No dia 7 cavaleiros, amazonas e toureiros vestidos por Palmira Horta vão concentrar-se no largo da câmara e percorrer as ruas da vila até ao Páteo Valverde. A estilista faz todo o tipo de trabalhos de costura, mas é uma apaixonada pela festa brava. No último domingo da festa de Maio, dia de homenagem ao campino, Palmira Horta surpreendeu a população vestida com um traje de campesina em bombazina, azul petróleo, lenço na cinta e chapéu preto. No desfile que acompanhou seguiam mais onze crianças vestidas de toureiras com a marca pessoal da estilista. “Tudo o que faço é para embelezar a minha terra e isso faz-me feliz. As tradições de Azambuja estão no meu sangue”.A arte do restauroO calção de forcado acaba de ficar pronto. Palmira Horta coloca a peça acabada num cabide e traz um luminoso traje de luzes para restauro. O fato, bordejado de vidrilhos em Espanha, foi-lhe entregue em mãos por um toureiro da vila que lhe pediu para fazer o ajuste. Palmira Horta é a única costureira em Portugal capaz de fazer este tipo de trabalho.Para entregar o fato a tempo Palmira Horta vai saltar o feriado da Páscoa e fazer serão. Tudo por amor à terra. “O nosso menino (Pedro Paulino) vai tirar a alternativa em Salvaterra de Magos”, explica com carinho.Palmira trabalha de porta fechada. Os clientes habituais já sabem que têm que bater no vidro. Depois de um grupo de forcados, entra no atelier a amazona Ana Rita Rosário. A romeira de São Martinho, vestida por Palmira Horta, com traje à portuguesa em tons de castanho, arrecadou há dois anos na Golegã o prémio de melhor fato. A estilista também veste os cavaleiros. Corta os casacos e borda os tecidos a ouro e prata. Descobre os tecidos na Casa Brincheiro, no Cartaxo. A criação surge espontaneamente das suas mãos. Cada peça resulta de um momento de inspiração. Um fato nunca pode ser igual ao outro.As peças não são contabilizadas à hora. A estilista estipula um valor para cada tipo de fato. “Não haveria dinheiro para pagar tanto trabalho”, assegura. O seu atelier já é famoso nos bastidores da tauromaquia na região. Palmira Horta orgulha-se de ajudar a brilhar na arena toureios, forcados e cavaleiros. E faz suas as palavras de quem vive diariamente no mundo da tauromaquia: “Um toureiro bem vestido tem meia faena feita”.Ana Santiago
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