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Especial 25 de Abril | 20-04-2005 03:32
As primeiras palavras do 25 de Abril
“E depois do Adeus” foi feita para ganhar o Festival da Canção da RTP e acabou por servir de senha para o arranque da Revolução dos Cravos. José Niza, conhecido músico e compositor de Santarém, é o autor da letra da canção celebrizada por Paulo de Carvalho e conta alguns aspectos curiosos em torno da mesma.
Quando escreveu a letra “inócua” para uma canção “romântica” feita para ganhar o festival da RTP, José Niza estava longe de pensar que iria ficar ligado à operação militar que derrubou o regime de Marcelo Caetano e implantou a democracia em Portugal em 25 de Abril de 1974.A canção “E depois do adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho, foi uma das senhas escolhidas pelos militares revoltosos para comunicarem, via rádio, sem levantarem suspeitas. Foi passada por João Paulo Diniz nos Emissores Associados por volta das 23h00 de 24 de Abril. Pouco mais de uma hora depois, foi emitida “Grândola, Vila Morena” a partir do Rádio Clube Português.“O objectivo era dar a ordem de partida para a saída dos quartéis. Ficou a saber-se que havia condições para avançar”, diz José Niza que na altura nada sabia sobre a conspiração que se erguia contra o antigo regime. “Para mim a grande surpresa foi, antes de mais, o 25 de Abril. Essa foi a grande surpresa”.O músico, autor e compositor de Santarém explica a escolha dessa canção, composta por José Calvário, com a fama que a mesma tinha na altura. Havia poucas semanas que havia ganho o Festival RTP da Canção e muito recentemente havia representado o nosso país na Eurovisão em Inglaterra.“Era uma canção extremamente popular e uma forma fácil e inteligente de os militares fazerem passar as mensagens entre si sem levantarem suspeitas e desconfianças”, diz o ex-deputado socialista e ex-presidente da Assembleia Municipal de Santarém.José Niza só teve consciência do seu contributo involuntário para o arranque da operação militar alguns dias depois, quando a comunicação social começou a dissecar os pormenores, os detalhes de uma revolução que quase não derramou sangue e que foi seguida atentamente no mundo inteiro. “Logicamente que fiquei satisfeito e com algum orgulho, porque as primeiras palavras do 25 de Abril foram escritas por mim, embora não tenha feito de propósito”, reconhece.Até há poucos anos, a canção permaneceu esquecida à sombra de “Grândola Vila Morena”, a versão popularizada por Zeca Afonso e considerada como uma espécie de hino da revolução. José Niza diz que essa situação foi alimentada durante alguns anos e que o papel de “E depois do adeus” acabou por ser “omitido” por razões políticas. Embora reconheça que a música de Zeca tem um carácter político que lhe confere outra dimensão e importância.Mas a História encarregou-se de colocar as coisas nos seus lugares. E hoje, à distância de algumas décadas, já não faz sentido haver pruridos por uma canção festivaleira, romântica e inócua ter alinhado lado a lado com a versão de “Grândola, Vila Morena” de Zeca Afonso, considerada uma espécie de património nacional e marca de uma época em que todos os sonhos eram permitidos. A notoriedade de “E depois do adeus” levou mesmo a que fosse adaptada pelo Contra-Informação numa rábula sobre Manuel Monteiro, quando este perdeu a liderança do CDS/PP para Paulo Portas. “Na altura pedi à RTP uma cópia do vídeo, que ofereci ao Manuel Monteiro quando ambos éramos deputados. Claro que, como ele não tem sentido de humor, nem sequer acusou a recepção…”, diz com humor José Niza.“E depois do adeus” tem um currículo recheado de coincidências felizes e cruza-se noutra data com a nossa História recente. Além de ter servido de senha para o 25 de Abril foi gravada ao fim da tarde de 16 de Março de 1974 em Madrid, precisamente no dia em que se deu o golpe militar com origem nas Caldas da Rainha que viria a fracassar. Mas à segunda foi de vez…João Calhaz
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