uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante
Futuro da praça de toiros está comprometido

Futuro da praça de toiros está comprometido

Vila Franca precisa de duas figuras e gente competente
Edição de 29.06.2005 | Cultura e Lazer
Há muito tempo que Vila Franca não tem uma figura. A última foi Vítor Mendes?O Vítor Mendes não é de Vila Franca. Não o considero desta terra e não o aceito como tal. Os toureiros de Vila Franca são diferentes de todos os outros no brio, na entrega e na seriedade. Os três últimos toureiros de Vila Franca (José Falcão, José Júlio e Mário Coelho) marcaram todo o mundo taurino pela sua dimensão. Todo aquele que se intitula de Vila Franca, sem o ser, não é aceite por mim.Para quando um toureiro de Vila Franca?Vila Franca necessita de dois ou três toureiros para que os aficionados criem o seu ídolo e voltem a encher as praças. Enquanto não tivermos toureiros que tragam alegria e paixão a este público a cidade não conseguirá recuperar o estatuto que teve.Longe vai o tempo da Sevilha Portuguesa?Conheço bem o ambiente de Sevilha onde vivi três anos e eu próprio dizia aos sevilhanos que era da Sevilha Portuguesa. Hoje, com este ambiente taurino, não temos o direito de comparar porque não tem comparação possível. Oxalá que um dia volte a ser a Vila Franca de outros tempos. Hoje há muitas terras que passaram Vila Franca a nível de força taurina. Moita do Ribatejo, Santarém e até Angra do Heroísmo, por exemplo, tem mais ambiente taurino e força nos cartéis.Ainda recentemente o festival de homenagem ao maestro Mário Coelho com três figuras teve mil espectadores.Quando um cartel destes com três figuras máximas mundiais não consegue encher a praça...Este cartel esgotava a praça de Sevilha.Era a festa dos seus 50 anos de toureiro. Sentiu desencanto?Senti uma enorme tristeza porque foi a prova dos nove. Vila Franca está muito fraca a nível de sentimento taurino.O maestro foi um embaixador de Vila Franca no mundo. A cidade não lhe retribui essa entrega e determinação?A praça nunca encheu. Este foi um dos espectáculos com mais público. Não fiquei descontente porque cumpri a minha tarefa e trouxe três toureiros dos melhores do mundo, um jovem de Vila Franca que quer ser toureiro, dois bons cavaleiros e o grupo de forcados de Vila Franca. Com este alheamento dos aficionados, a praça Palha Blanco pode estar comprometida?Um concelho com mais de 120 mil pessoas não tem um por cento de aficionados que vão aos toiros, é grave. Temos de fazer alguma coisa ou pensar que aquela praça não faz falta em Vila Franca.O que se deve fazer?Entregar a festa dos toiros a pessoas competentes e verdadeiros taurinos. Não podemos continuar a deixar que sejam os incompetentes a tomar conta da festa. A continuar assim a praça está em perigo.Julga que deve ser a câmara a ficar com a gestão da praça?Seria magnífico, mas a câmara terá de procurar pessoas competentes e com capacidade e com gosto pela festa. Há uma doença no ambiente taurino de Vila Franca porque se escolheram pessoas incompetentes, que não são taurinas, e que saem da terra quando há toiros porque não gostam, para organizar a festa.Está à beira dos 70 anos e tem uma experiência acumulada. O que gostaria de fazer para deixar esse legado?Sou mais uma fonte fechada e lacrada. Toda a sapiência dos mais velhos é trancada de propósito para que os medíocres não se sintam pressionados pelo seu saber. Enquanto os responsáveis não abrirem estas fontes, continuaremos a viver nesta mediocridade.Voltaria a ser toureiro? Sem a menor dúvida. Orgulho-me da minha carreira e valeu a pena este percurso. Não há outra profissão na vida tão completa e tão nobre como a de toureiro. É um sonho permanente com uma entrega total, humildade, grandeza, alegria e uma paixão infinita. Representei a minha terra e o meu país em vários pontos do mundo e senti uma grande alegria pela forma como fui reconhecido.É uma profissão de alto risco?É a única profissão do mundo onde o adversário tem toda a liberdade para te roubar a vida. Nem no automobilismo, nem no boxe,...aqui damos a vida para agradar ao público com um grande respeito. Basta que um espectador não goste e assobie para se multiplicar os assobios e nas palmas é a mesma coisa. Há uma sensação única quando temos milhares de pessoas de pé a aplaudir.Mário Coelho foi um dos raros toureiros que mataram toiros em Portugal e foi preso na Moita em 1984. A lei não permite a morte na arena. Sente alguma frustração por não poder exercer a sua arte na plenitude no seu país?Até nisso estamos atrasados. Em todos os países houve uma evolução porque só há uma tauromaquia. Em Portugal, os inimigos da tauromaquia estão dentro da tauromaquia. O público habitua-se ao que lhe dão e monta-se espectáculos de qualquer maneira. Uma parte da tauromaquia quer abafar a força dos toureiros e faz tudo para afastar a corrida integral. Só por ignorância é que não se picam os toiros e não se matam na praça. Se houvesse um debate sério sobre os toiros de morte, o público iria perceber e iria entender porque se pica e porque se mata o toiro. Tem um museu na casa onde nasceu. Este espaço é aprazível mas não consegue acolher todo o seu espólio.Como sabe foi uma solução provisória para dois ou três anos. Tenho a promessa da senhora presidente da câmara de que Vila Franca terá um museu dos toureiros da terra que irá perpetuar a caminhada dos três toureiros e dos bandarilheiros desta terra.Nelson Silva Lopes
Futuro da praça de toiros está comprometido

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...