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29/06/2017
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Artistas nas horas vagas
As artes não garantem subsistência aos profissionais da região
Vivem para a pintura, escultura e desenho, mas não sobrevivem das artes. São os trabalhos extra que garantem a subsistência aos artistas plásticos da região.
Edição de 30.11.2005 | Cultura e Lazer
A folha de calendário marcava o ano de 2002. Sobre o rectângulo de papel colocado na secretária, em frente ao telefone, Orlando Franco desenhou, rabiscou, projectou e anotou. Durante três anos. Quase sem dar conta, a obra nasceu. E conquistou o primeiro lugar no Salão de Outono do Centro Cultural Regional de Santarém, entregue recentemente.Os registos de desenho que preenchem os espaços brancos das três folhas de calendário surgiram aleatoriamente durante conversas “Ao telefone” – o título da obra. Que nasceu de “um riscar sem ser premeditado, quase intuitivo”. Orlando Franco, artista plástico na área do vídeo e instalação, não impõe qualquer tipo de limitação à sua liberdade artística. Também por isso não pode dar-se ao luxo de viver da arte. Vive apenas perto dela. O artista plástico de 28 anos, residente em Casais das Comeiras, Aveiras de Cima (Azambuja), colabora com o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, na área do serviço educativo. Faz visitas guiadas a grupos que procuram o espaço para contemplar a arte. O prémio monetário dos concursos, como o Salão de Outono, é o grande aliciante para quem é obrigado a procurar a sobrevivência longe da verdadeira vocação. Os circuitos comerciais, que permitem a um círculo restrito de artistas plásticos viver exclusivamente da arte, estão quase todos concentrados em Lisboa e Porto.Longe, muito longe do ateliê de Susana Rosa, no Pego, em Abrantes. É lá que a artista plástica, 29 anos, prepara há alguns meses o projecto de animação cultural para escolas e bibliotecas públicas dos concelhos de Abrantes e Constância.A técnica mista sobre tela não lhe permite sobreviver só da arte. “Se fosse suficiente só faria isso”, garante. Mas podem passar-se meses sem que venda uma única obra. Os circuitos comerciais estão demasiado apertados, o artista plástico é pouco apoiado e não há sensibilização para a arte.“O artista não é reconhecido como um membro da sociedade e há a ideia de que tem que trabalhar isolado. É um mito que deveria ser desmoronado”, garante a artista.É também o lugar menor que a arte ocupa ainda na sociedade que motiva a artista a trabalhar com as crianças, um público que lhe agrada particularmente. Começa desde cedo a incutir o gosto pela fruição artística. Para Susana Rosa não faz sentido a separação das artes das outras coisas. Para a pintora a arte é a única forma de se relacionar com a vida, de denunciar o estado caótico da sociedade e de tentar entender o mundo. Às vezes de pernas para o ar, como retratam muitas das suas peças.Ana Santiago
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