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Um pescador que já teve melhores dias

Júlio Letra ajuda a abastecer restaurantes para o Mês da Enguia no concelho de Salvaterra de Magos
Edição de 01.03.2006 | Sociedade
O tempo está cinzento e ameaça chuva. Júlio Charana Letra desce à caçadeira (bote) atracada no cais do Escaroupim, Salvaterra de Magos. Com um plástico e os remos prende um impermeável para evitar que a chuva inunde o chão da embarcação.A meio da semana que passou o dia está frio e o vento cortante, apesar do sol que espreita de vez em quando. Decidiu não ir ao rio. Que a apanha da enguia não anda a deixar saudades. “Da última vez fiz nove lances e não veio nada” assegura.Júlio Charana Letra nasceu em Valada (Cartaxo), que se avista na margem contrária mas cedo foi para o Escaroupim. Há três anos que se dedica à pesca a sério e legal, entre a dúzia de pescadores que subsiste na aldeia.Antes, andou nos batelões em Lisboa a transportar todo o tipo de materiais.A poluição, como os químicos das culturas do arroz que caem para o Tejo, é uma das razões apontadas pelo pescador para a diminuição da captura da enguia. Outra, mais recente, são os caranguejos e também os lagostins, que vão à procura do isco nas redes e estraçalham a “naça”, rede própria para capturar enguia.A melhor altura é na baixa-mar. Quando o nível do rio diminui ou, em alternativa, procurar nos afluentes e nos baixios. A partir de Março e no Verão é a altura ideal para capturar a enguia. Noutras redes também costuma vir o barbo, a fataça e a lampreia. “Há muito anos, ia para a vala nova em Benavente com o meu pai apanhar enguias que entravam nos campos de arroz chupadas pelos canos. Bastava só abrir uma parte dos muros de areia e as redes ficavam atafulhadas”, recorda o pescador.No prato dos pescadores, a enguia faz-se de caldeirada. Com batata, cebola e tomate. “Frita também fica bem. Se sobrar corta-se aos pedaços, com louro, alho e vinagre para o dia seguinte”, diz Júlio Letra, assegurando que é um petisco de trás da orelha.Um quilo de enguias, diz Júlio Letra, pode ficar por 25 euros. Um preço elevado, pela escassez e pela gasolina e tempo que se perde no barco ao longo do rio.Ao Escaroupim vão donos de restaurantes, comerciantes e simples curiosos e adeptos da enguia. “Alguns compram-na aqui só para a irem cozinhar a casa”, adianta Júlio Letra. Também à beira Tejo, junto ao cais do Escaroupim, o restaurante com o mesmo nome, prepara-se para o mês da enguia. Apesar de servir enguia todo o ano é agora que há mais procura de clientes.Caldeirada e ensopado de enguias são duas formas habituais de confeccionar o apreciado pitéu. Fritas são também muito apreciadas, mas não devem ter mais que a grossura de um dedo. Este ano a novidade é a enguia de fricassé.Ricardo Carreira

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