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Não sei o que se passa em Vila Franca de Xira

Daniel Branco guardou o período em que foi presidente da câmara no baú das memórias longínquas

O militante comunista Daniel Branco foi presidente da Câmara de Vila Franca de Xira durante 17 anos. Antes tinha sido vereador três anos. A derrota sofrida nas autárquicas de 1997 marcou-o de tal maneira que nunca mais quis saber do concelho cuja realidade conhecia como a palma das suas mãos. Hoje reside em Oeiras onde é membro da assembleia municipal.

Edição de 08.03.2006 | Política
Após ter perdido as eleições autárquicas de 1997 afastou-se completamente de Vila Franca de Xira. Ficou zangado com os eleitores?Vivo em Oeiras, onde sou eleito na assembleia municipal, trabalho aqui na sede do PCP na área das autarquias e é muito raro ir a Vila Franca de Xira. Quando lá vou sou bem recebido e ainda sou reconhecido como o presidente. Sinto que as pessoas têm consideração por mim e não tenho nenhuma razão para ter ficado zangado.Oito anos depois, como é que avalia os dois mandatos do PS?Não me posso pronunciar sobre uma realidade que conheço mal.Não conhece melhor porque não quer...Tenho passado em Vila Franca, mas não tenho tido contacto com o município. Vou recebendo algumas notícias dos meus filhos que vivem e trabalham no concelho. O meu filho que mora em Vila Franca diz-me muito mal da cidade. É a única informação que me é dada.O senhor abandonou Vila Franca de Xira?Não abandonei, vou muito pouco…e quando vou é para estar com a família.Ficou desencantado com os munícipes?Não foi desencanto…foi, sobretudo, uma surpresa enorme porque não esperava perder as eleições. Foi uma injustiça para a CDU.O que é que falhou?Nós tivemos problemas sérios no último mandato. Eu adoeci, estive internado no hospital e estive vários meses fora da câmara (1994), depois houve uma situação muito mais grave: a morte do vereador Carlos Arrojado com um cancro, que nos abalou imenso. Era um homem com grande capacidade, muito dedicado e estimado pelos munícipes. Repare que foi em Vila Franca, terra de Carlos Arrojado e onde era muito respeitado, que perdemos mais votos.O senhor tinha todas as sondagens a seu favor e chegou a comentar a vitória para a televisão?A SIC fez uma sondagem à boca das urnas e meia hora depois do fecho das urnas pediu-me um comentário à vitória. Eu disse para terem calma e quando falei tinha a ideia de que tínhamos ganho, mas perdemos por menos de 700 votos. Só na freguesia Vila Franca perdemos mais de mil votos. Foi uma grande desilusão.Para além dos problemas que já referiu houve mais algum factor determinante na derrota da CDU?Estou convencido que a candidatura da Zita Seabra pelo PSD influenciou o resultado das eleições. Houve muitos votos do PSD que foram para o PS. Foi ela que deu a vitória ao PS em Vila Franca. Não sentiu que foi um cartão vermelho do eleitorado descontente com a sua gestão?Não tenho essa ideia porque todas as sondagens nos davam a garantia de que os munícipes estavam satisfeitos. As pessoas mudaram de voto por outras razões. Nem a deputada Maria da Luz Rosinha tinha a convicção de que iria ganhar e acredito que ela tivesse preferido ficar como deputada na Assembleia da República. Depois de perder as eleições ainda ficou como vereador até Maio…Fiz questão de esperar pela aprovação das contas do último ano do meu mandato para que tudo ficasse esclarecido. Depois saí para uma nova vida.Acredita que a CDU pode reconquistar a Câmara de Vila Franca no final do ciclo Maria da Luz Rosinha?Como já disse não conheço bem a actual realidade da CDU em Vila Franca de Xira. A CDU era a força maioritária em Vila Franca, mas em Oeiras não tem expressão. Como é ser eleito da assembleia municipal nesse concelho?É um trabalho interessantíssimo porque é uma realidade diferente. Sou eleito na assembleia municipal e coordeno o trabalho da CDU no concelho. É muito diferente, mas é estimulante. Oeiras está atrasada 10 anos em relação a Vila Franca, em vários aspectos. Tem uma vida diferente da que tinha em Vila Franca?A minha vida modificou-se totalmente. Foi um salto enorme. A vida de autarca em Vila Franca de Xira tinha um ritmo intensíssimo. Eram reuniões sistemáticas. Foi uma ocupação extrema. Hoje tenho mais tempo para as crianças e para a família.Saiu do comité central do PCP. Foi uma opção pessoal?Foi. A partir do momento que deixei de ser presidente de câmara, pensei que não se justificaria a minha permanência no comité central e saí no último congresso. Continuo a dar o meu apoio ao PCP porque tenho uma experiência que pode ser útil. A corrupção nas autarquias está na ordem do dia. Nunca o tentaram pressionar ou corromper?Sinceramente nunca fui alvo de nenhuma tentativa de corrupção. Houve um grande construtor do nosso concelho que me ofereceu o seu Hotel no Algarve para passar férias, mas disse-lhe claramente que para nos entendermos não deveria fazer-me a oferta enquanto fosse presidente de câmara. Curiosamente, um dia o meu amigo Nuno Krus Abecasis (antigo presidente da Câmara de Lisboa) conseguiu levar-me a almoçar no hotel desse construtor durante um congresso da Associação Nacional de Municípios Portugueses. Foi a única vez…Nunca teve pressões?É claro que tive várias ofertas para a campanha eleitoral, mas encaminhei essas pessoas sempre para o PCP. Nunca negociei apoios nem para as minhas campanhas.Consta que quando perdeu as eleições tinha uma oferta de uma construtora que acabou por não ser entregue ao PCP?Desconheço essa situação, mas garanto que enquanto fui presidente nunca negociei nem recebi esses apoios. Estas coisas da corrupção resultam logo do faro que os corruptores têm e, provavelmente, comigo perceberam que não iriam conseguir…(risos)Vila Franca de Xira ainda não trata os esgotos. Essa situação não deveria ter sido resolvida no tempo em que foi presidente da câmara? Nós disponibilizamos terrenos, fizemos projectos e apresentámos candidaturas. Houve problemas técnicos complicados porque os terrenos estavam em leito de cheia. Chegámos à conclusão que tínhamos que fazer alterações. Mas estes 10 anos de atraso não têm nada a ver connosco, o PS ganhou a câmara, tinha um Governo socialista e não conseguiu resolver a situação no primeiro mandato.Alberto Bastos/Nelson Silva Lopes

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