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A voz que vem do além

A voz que vem do além

Filipa Mendes pede que alguém a salve do tormento em que vive

Há um ano que vive atormentada por uma voz do além. Já foi a Fátima, consultou médicos, videntes, bruxas, ninguém parece conseguir livrá-la daquele vulto negro, alto e delgado.

Edição de 15.03.2006 | Sociedade
“Por favor, salvem-me”. A voz sai sussurrada mas é como um grito de desespero. A força de Filipa Mendes está a chegar ao limite e é por isso que pôs a vergonha de lado e decidiu lançar um último apelo, com o apoio da família.O tormento da jovem de 16 anos começou há sensivelmente um ano. Estava numa sala de aula quando, sem nada o fazer prever, entrou em pânico e ganhou uma força descomunal. “Havia mais de dez pessoas a tentar segurar-me, colegas, contínuos e professores e não conseguiram acalmar a minha violência”.Foi levada para o hospital de Tomar, cidade onde habita, fez um sem número de exames que nada acusaram. Acabou por ficar internada durante três dias. E foi na primeira noite que passou sozinha no quarto que se fez luz. “Acordei de repente às quatro da manhã, olhei para o lado e sentado no cadeirão estava algo que eu nunca tinha visto”. Pensou estar a viver um pesadelo. Fechou os olhos e voltou a abri-los, mas a coisa continuava lá, sentada.A partir desse momento Filipa nunca mais foi a mesma. Começou a sentir a presença do vulto mesmo antes de o ver. E a ouvi-lo. Não há nenhum padrão definido. O vulto, diz, “aparece quando quer e lhe apetece”. E quando isso acontece, Filipa transforma-se. Torna-se violenta, a face ganha espasmos, o corpo tem vida própria. E o pior é quando da sua boca sai uma voz totalmente desconhecida, grossa e masculina.Filipa sabe que há muita gente que não acredita no que diz ver. “As pessoas são cépticas por natureza”, afirma quem num ano ganhou uma maturidade de adulto. Não acreditam mas também não conseguem explicar o fenómeno que transforma a jovem e que a tem obrigado muitas vezes a ir parar às urgências do hospital, referem os avós e uma tia que sempre a têm acompanhado. A mãe, viúva e invisual, pouco pode fazer, além de lhe dar força anímica.Fez exames ao cérebro, consultou um psiquiatra. Que lhe diagnosticou um trauma de infância. Filipa não corrobora dessa tese. Afirma ter tido uma infância normal, feliz e que até ao ano passado era uma jovem equilibrada. “Não posso fazer as pessoas ver o que vejo e ouvir o que ouço. Só peço que acreditem em mim”, refere enquanto vai entrelaçando as mãos trementes.Confessa que ela própria não acreditava em coisas sobrenaturais, até “aquilo” ter entrado na sua vida. “O que vejo é um vulto escuro, dá para perceber que é alto e esguio e que usa um chapéu na cabeça”. Há uns tempos conseguiu até tirar umas fotos pelo telemóvel. “Ele apareceu por trás da minha prima e ficou imóvel, parecia estar a posar para a foto”.Não consegue lembrar-se se é alguém que já tenha passado pela sua vida, mas diz que a última vez que o vulto falou com ela, na segunda-feira da semana passada, a voz soou-lhe familiar. “Disse-me ao ouvido que o meu pesadelo ainda não tinha acabado”.“Já fui comprar um x-acto de propósito para me cortar”, diz enquanto mostra as marcas no braço esquerdo. “Queria ver o sangue jorrar, sentia-me satisfeita e a dor só apareceu muito depois, quando tudo passou”. Os avós confirmam a situação e dizem já não saberem o que fazer mais para tirar o sofrimento à neta, temendo pelo seu futuro.A jovem também tem medo que numa próxima vez o x-acto já não seja suficiente. E que acabe por fazer algo mais drástico. “É o que ele quer. Diz que me mata, que me leva, que não vale a pena eu tentar tirá-lo da minha vida porque vou para junto dele”.Filipa quer acreditar que algum dia o sofrimento acabará e que conseguirá fazer desaparecer o tormento em que hoje vive. Mas o desânimo vai tomando conta dela à medida que não encontra solução.“Já fui a Fátima, consultei médicos, videntes, bruxas, ninguém parece conseguir fazer nada”. Perdeu a vergonha de dizer que vê algo sobrenatural não só pelo seu desespero mas também pela angústia em que toda a família vive. É por isso que ganhou coragem para contar publicamente a sua situação e lançar um apelo nas páginas do jornal: “Por favor, salvem-me!”.Margarida Cabeleira
A voz que vem do além

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