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A paixão pelo Japão

Edição de 22.03.2006 | Entrevista
Como é que foi parar ao Japão?Acho que quase todos temos interesse pelo Oriente. Porque é longe, porque é exótico. Porque quase todos lemos na adolescência o Venceslau de Morais e quando se descobre o Japão de Venceslau de Morais então ficamos apaixonados. Por isso é que ele lá ficou e se casou lá duas vezes, embora apedrejado nas vésperas da sua morte. Porque no Japão um estrangeiro é sempre um estrangeiro…É uma sociedade fechada?Muito fechada. A integração é sempre muito difícil.Mas o senhor, pelos vistos, conseguiu integrar-se.Não tive dificuldade inicialmente, quando fui para o Japão, porque fui criar o leitorado de português. E no Japão o respeito pelos valores culturais é tão grande que ser-se professor é estar no topo da hierarquia. Viveu essa experiência com que idade?Fui para o Japão com 28 anos e regressei com 30. É evidente que foi muito mais difícil a minha integração aqui. No fundo era praticamente voltar cem anos atrás. Foi muito difícil.O que é que o Japão mudou na sua vida, na sua forma de estar?Deu-me três coisas que foram muito importantes. Permitiu-me dar a volta ao mundo, ir pela Ásia e voltar pela América. E nesses anos, em 1968, atravessar o Pacífico ou a América permitiu-me passar a olhar o mundo com alguma displicência. E permitiu-me aceitar com toda a naturalidade ser comissário geral para a grande exposição dos descobrimentos portugueses. Eu não ia viajar, já o tinha feito, ia para encontrar as obras de arte necessárias.Voltando ao Japão…Outro aspecto importante foi habituar-me a entrar num templo budista, a bater as palmas aos deuses xintoístas, a ir à missa no colégio dos jesuítas. Aprendi a casar tudo isso com os japoneses. Que nascem todos xintoístas, enquanto vivem são o que podem ser e quando morrem são todos budistas. Como é o seu ciclo espiritual? Nasceu católico, é o que pode ser? E vai acabar como?É difícil dizer porque não sei como vou acabar. O meu ciclo espiritual é ter nascido católico e ter tido, por essa experiência no Japão, uma grande abertura para essas religiões. Espero pelo menos ser um cristão peregrino.Qual foi a terceira marca do Japão…Foi a da noção do tempo. Usar o tempo na prática. É não ter pressa, é não se satisfazer com uma parangona num jornal e julgar que se passou a ser um homem de sucesso. É o trabalho que leva às estratégias. As estratégias que levam a manter-se na crista da onda através do tempo. E para isso é preciso ter a noção de não ter medo do tempo. Os japoneses têm uma enorme calma por isso. É gente extremamente trabalhadora, mas que sabe esperar. E nesse aspecto consegue ser japonês?Consigo. Acho que a minha vida feita até hoje nunca poderia ter sido esta se não tivesse dado noção ao tempo. Jamais.

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