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Canavarro Sensei

Edição de 22.03.2006 | Entrevista
Pedro Canavarro, 68 anos, um filho e duas filhas, homem de cultura cioso das suas raízes aristocráticas. Formado em História e Museologia. Foi professor universitário em Portugal e no Japão. Destacou-se como comissário geral da XVII Exposição do Conselho da Europa sobre os Descobrimentos Portugueses. Na década de 80 foi presidente do Partido Renovador Democrático, vereador desse partido na Câmara de Santarém e eleito para o Parlamento Europeu como independente na lista do PS, onde esteve até 1994. Em 2005 volta à política dando a cara por Moita Flores na lista do PSD à Câmara de Santarém. Foi também mandatário distrital da candidatura de Cavaco Silva.Fundou e dirige a Fundação Passos Canavarro, sedeada na sua casa situada na alcáçova de Santarém, que absorve hoje grande parte do seu tempo. Daqui a dois anos, quando estiver feito o segundo catálogo da fundação - e a casa onde nasceu e hoje vive sozinho estiver aberta ao público - deseja libertar-se para “um outro tipo de ser e estar”. Dar-se ao prazer de pensar, “ver até onde a intervenção da luz faz falar os objectos” numa casa a que quer dar um uso mais alargado. “Registar por escrito esse tipo de sensações que só a idade e a liberdade de ter tempo permitem”.A participação activa na vida associativa e cívica resume-se hoje à presidência da assembleia geral do Círculo Cultural Scalabitano. Mas foi dirigente e fundador de entidades como a Associação de Defesa do Património de Santarém, Associação Portugal-Japão e da Casa da Europa do Ribatejo.Pedro Canavarro reconhece que nasceu em berço de ouro mas garante que nunca foi um acomodado. Estabeleceu projectos e metas pela sua cabeça, contrariando a vontade dos pais. Foi dar aulas para o Japão entre 1966 e 1968, numa fase em que era fã dos The Beatles ou Pink Floyd. Grupos que ainda hoje ouve, apesar da música clássica, e sobretudo a de Mahler, ser a preferida.A então directora do Museu Nacional de Arte Antiga, Maria José Mendonça, convidou-o para seu número dois, tinha ele 30 ou 31 anos. Podia ter-se acomodado e esperar que a direcção do maior museu nacional lhe caísse nas mãos. “Eu agradeci-lhe muito, mas disse que não podia porque tinha os alunos em greve e tinha de ir para junto deles dar alguns passos pela democratização da faculdade”.Tem fé dentro da religião cristã mas é um “mau católico”. Acha que todas as religiões trazem alguma coisa que nos fazem mais completos. Daí não surpreender que a fotografia do Dalai Lama, um pensamento japonês xintoísta em tecido, uma nossa senhora ortodoxa ou uma cruz visigótica cristã convivam sob o mesmo tecto.Ajudou a trazer as primeiras cerimónias xintoístas e budistas a Portugal, em 1986 e 1987. Como agradecimento, numa visita posterior a um templo em Nagasaki foi “recebido de uma forma fantástica”. “O sentido de agradecimento era tão grande que as vestais do templo lavavam as pedras do templo antes de eu as pisar para entrar”. Se o seu nome fosse dado a uma rua – como aconteceu com o seu trisavô Passos Manuel ou com o seu bisavô Pedro Canavarro -, gostava de ficar para a posteridade como Canavarro Sensei. Sensei que significa professor em japonês.O aspecto que mais o orgulha no seu currículo “é ter nascido em Santarém”. No quarto onde ainda hoje dorme e em que pernoitou Almeida Garrett, o escritor romântico que se deslumbrou com a paisagem sobre a lezíria e o registou no romance “Viagens na Minha Terra”.

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