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Mulher ao volante

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Ana Cristina Costa é motorista da Rodoviária do Tejo

Poucas pessoas podem dar-se ao luxo de fazer o que gostam, de ter o emprego que sempre desejaram e trabalhar com prazer. Ana Cristina Costa é uma das felizardas. Desde a escola primária que queria ser motorista, hoje agarra o volante dos autocarros da Rodoviária do Tejo com um sorriso nos lábios.

Edição de 22.03.2006 | Identidade Profissional
Ana Cristina Costa passa as mãos pelo volante do autocarro da Rodoviária do Tejo como se o estivesse a acariciar. “É disto que eu gosto”, diz, com o semblante marcado pela satisfação de ter realizado o sonho da sua vida – ser motorista.Em pequenina, quando todas as colegas da escola primária queriam ser actrizes, cabeleireiras ou professoras, Ana Cristina Costa sonhava já conduzir um veículo com um grande volante. “Sempre disse que queria ser motorista” refere a jovem residente em Tomar.Um sonho que concretizou com apenas 22 anos, depois de ter lutado contra o que chama de discriminação machista. “Foi muito complicado conseguir o emprego dos meus sonhos porque a maioria das empresas deste ramo continua a preferir homens a mulheres”, refere a motorista.Abandonou a escola depois de terminar o nono ano, tendo já nessa altura a carta de veículos ligeiros. Depois de ter trabalhado numa profissão que nada lhe dizia, decidiu avançar com o seu sonho de menina e tirou a carta de pesados. Mas não ficou por aí. Com as duas cartas na mão, avançou para a terceira, que lhe possibilita ter hoje a profissão que sempre desejou. A carta de pesados de passageiros foi conseguida com êxito em Agosto do ano passado.A partir daí foi um vaivém de entrevistas para possíveis empregos. Bateu a muitas portas, levou muitos “nãos” mas nunca desistiu. “Algumas empresas disseram logo que não aceitavam mulheres para aquele tipo de trabalho”.A própria família sempre esteve muito renitente em aceitar a opção profissional de Ana Cristina Costa. “Diziam que não era a profissão adequada para uma mulher, mas depois de verem como eu lutava para concretizar o meu sonho passaram a apoiar-me a 100 por cento”.Ao fim de vários meses à procura de emprego na área, a jovem decidiu enviar uma candidatura para a Rodoviária do Tejo. “Era a minha última esperança”, confessa.Lembra-se como se fosse hoje do dia em que foi à entrevista na empresa. “Estava muito calma e a entrevista correu bem, assim como as provas de mecânica e de condução”.O pior foi o tempo de espera entre a entrevista e o telefonema que lhe mudou a vida. “Aqueles 15 dias foram um martírio, já ninguém me podia aturar lá em casa”. Não é de estranhar que no dia em que o telefone de casa tocou e do outro lado da linha uma voz lhe transmitiu as palavras “mágicas” a jovem tenha desatado a chorar de alegria. “Nesse mesmo dia fui a Fátima, agradecer a Nossa Senhora o facto de ter ouvido as minhas preces”.A jovem motorista aplaude a decisão da empresa em dar oportunidade às mulheres de mostrarem que também sabem conduzir autocarros. “É uma questão de igualdade de oportunidades que todas as empresas deviam seguir”, diz com convicção.Não esconde, todavia, que é complicado lidar com o público, principalmente com os “machistas”. “Tive homens que, quando entravam no autocarro e percebiam que quem ia ao volante era uma mulher quiseram sair por causa do «perigo», mas eu consegui acalmá-los”, refere a jovem que tem estado ao serviço dos Transportes Urbanos de Tomar (TUTomar).E foi a conduzir uma veículo do município que a motorista teve o primeiro e até agora único dissabor da sua vida profissional. Em Janeiro deste ano foi agredida fisicamente por um passageiro e precisou de assistência hospitalar.O homem, acompanhado de duas mulheres, estava na paragem junto à rodoviária e queria à viva força que o seu cão entrasse no autocarro. Quando a motorista lhe disse que o animal não podia circular o homem partiu para a violência, ameaçando também os poucos idosos que àquela hora estavam dentro do veículo. A jovem acabou por ser salva por alguém que chamou a polícia.Ana Cristina Costa prefere não dar muita importância à situação. Considera o episódio como um percalço da profissão, “ossos do ofício”. Nada que a tenha abalado o suficiente para desistir do emprego que tanto lhe custou a conseguir.E pensa já numa nova etapa da sua vida – tirar a carta de pesados com atrelado, a única que lhe falta. “O que eu quero mesmo é de conduzir carros grandes e gostava de fazer viagens para fora de Portugal. Sei que ainda é cedo mas eu também sou muito nova, posso esperar”.Margarida Cabeleira
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