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Aprender a lidar com a vida

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Quinze mulheres carenciadas participam em projecto pioneiro de voluntariado

Durante seis meses, 15 mulheres carenciadas receberam formação em várias áreas e aprenderam a gerir as casas e a apoiar a família. O projecto inédito decorreu em Alhandra, Sobralinho e São João dos Montes

Edição de 22.03.2006 | Sociedade
Um projecto desenvolvido por voluntários em três freguesias do concelho de Vila Franca de Xira ensinou 15 mulheres oriundas de famílias carenciadas a gerirem as suas casas. O plano de trabalho iniciado em Setembro terminou na quinta-feira, 16 de Março. Três das 15 mulheres arranjaram emprego e outras melhoraram substancialmente a sua forma de estar na vida.Intitulado “Acreditar Fazendo o Mundo à Nossa Medida”, este projecto desenvolveu-se durante seis meses nas freguesias de São João dos Montes, Sobralinho e Alhandra.“O objectivo é trabalhar com mulheres de famílias carenciadas e orientá-las, para que se tornem mais autónomas e inseridas na sociedade”, disse à agência Lusa, Guida Alves, psicóloga e coordenadora do projecto.Para tal, foram seleccionadas cinco famílias de cada freguesia, sinalizadas pela Segurança Social e abrangidas pelo Rendimento de Inserção Social.“Os maridos estão a trabalhar e elas estão em casa. São pessoas que têm carências muito grandes a nível afectivo. Nunca tiveram muito acompanhamento por parte dos pais”, explicou a coordenadora.Na prática, falta a essas mulheres, maioritariamente portuguesas entre 30 e 40 anos, noções do senso comum de como gerir uma casa, tratar da higiene do lar e dos filhos e orientar a escolaridade das crianças, entre outros.“Há mulheres que recebem comida do Banco Alimentar e, por exemplo, fazem um pacote de arroz de uma só vez. Não sabem que podem e devem fazer pequenas porções de cada vez”, disse Guida Alves.“O projecto ensina-as ainda a gerir o dinheiro e indica-lhes onde comprar produtos mais baratos”, acrescentou.Acreditar Fazendo o Mundo à Nossa Medida tem ainda módulos de saúde, leccionados por técnicos especializados que dão noções de saúde oral e ambiental, de doenças comuns nas crianças e de medicamentos.Há também um módulo de culinária e de lavores, dado por dois artesãos do concelho, onde as mulheres aprendem a costurar, a pintar gesso, a confeccionar roupa e a fazer bonecas de trapo.A coordenadora do projecto tem sob a sua responsabilidade a Educação Parental, onde são tratados problemas relacionados com as birras e os comportamentos das crianças.As mulheres recebem ainda Educação Cívica, a cargo dos bombeiros locais, onde aprendem como actuar em caso de roubo, de incêndio, de sismos e os cuidados que devem ter com o gás.“Explicamos também a importância de acompanharem as aulas das crianças e de elas próprias frequentarem a escola, uma vez que a maioria tem níveis de escolaridade muito baixos”, afirmou Guida Alves.FORMADORES SÃO VOLUNTÁRIOSA responsável sublinhou que neste projecto “todos as pessoas que dão formação estão a fazê-lo em regime de voluntariado” e destacou a ajuda da organização católica local “Obra das Mães”, que fica com as crianças enquanto as mães estão na formação.Para avaliar se as mulheres estão ou não a aplicar os conhecimentos que adquiriram na formação, Guida Alves e algumas técnicas da Segurança Social fazem visitas domiciliárias.“Assim podemos ver se adquiriram outros hábitos de higiene e se estão a conseguir gerir as casas”, disse a responsável.No campo profissional, algumas das mulheres têm projectos para abrir um pequeno negócio, na área dos serviços.Uma delas é Carla Vieira, 31 anos, residente no Sobralinho, que quer montar uma ‘mini-empresa’ juntamente com duas colegas.“A população em Alhandra é muito idosa e procura quem a ajude a lavar roupa, engomar, a fazer pequenos arranjos de costura e a limpar as casas. Como não há quem preste esses serviços aqui, vamos apresentar um projecto no Centro de Emprego”, disse.Do curso em geral, Carla Vieira diz estar “a gostar” porque “sempre se aprende a fazer qualquer coisa”, destacando os módulos dos lavores e de saúde.Já Severina Veiga, uma cabo-verdiana de 38 anos e mãe de sete crianças, admite que aprendeu “muita coisa nova sobre saúde, principalmente a cuidar dos filhos, porque desconhecia muitas coisas”.“Os meus melhores dias são os que venho para a formação. Antes estava em casa e não tinha tempo para nada e agora tenho a vida tão organizada que tenho tempo para tudo”, disse.A culinária e os lavores são as “disciplinas” preferidas de Severina Veiga, que não esconde que gostaria de continuar com a costura e com as pinturas, tarefa na qual já conta com a ajuda dos filhos mais velhos.Os últimos dias da formação foram uma azáfama para acabar todos os vestidos para uma passagem de modelos que vai realizar-se em Abril e na qual as formandas vão desfilar.Terminada esta acção de formação, Guida Alves não esconde o desejo de continuar com este projecto, que considera inédito no país.“Que eu tenha conhecimento, não há mais juntas de freguesia no país com projecto idênticos”, disse.Apesar de manifestar o interesse em continuar com as acções de formação, a responsável lembra que é preciso ponderar várias questões, nomeadamente a das crianças, porque depende da disponibilidade da “Obra das Mães” para continuar a ficar com elas.A coordenadora destacou ainda a colaboração no projecto “Acreditar Fazendo o Mundo à Nossa Medida” dos Bombeiros Voluntários de Alhandra, do Alhandra Sport Clube, da União Desportiva e Cultural da Aldeia do Sobralinho, dos Vicentinos, da Paróquia de Alhandra e de uma padaria daquela vila que dá pão para o lanche das crianças nos dias de formação.LUSA/MIRANTE
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