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“Sempre que morre um velhote, desaparece um cliente”

A mercearia de Luís Cipriano Carvalho, em Alverca, tem mais de 200 anos

Na zona antiga de Alverca existe uma mercearia com mais de 200 anos onde ainda se compra feijão a granel e caras de bacalhau.

Edição de 22.03.2006 | Sociedade
Quem desce o passeio estreito da Rua Miguel Bombarda, no burgo mais antigo de Alverca do Ribatejo, depara-se com uma mercearia de portas em madeira e telhados baixos que sobrevive há mais de dois séculos.Do outro lado do balcão, sob a luz ténue que ilumina a loja, aparece Luís Cipriano Carvalho. O merceeiro, de 65 anos, é o guardião da loja de Vergílio Ferreira. Tomou-a de trespasse há 40 anos. Paga 47 euros aos herdeiros do proprietário pelo aluguer do número 39/41. É a venda tradicional que lhe garante o sustento desde os 26 anos.Os armários altos tocam no tecto da loja. Estão pintados em verde vivo e preservam ainda a traça original do mobiliário da mercearia. Luís Cipriano Carvalho, natural do concelho de Alenquer, apenas substituiu o carcomido balcão de madeira por uma bancada em inox.A casa conserva a balança antiga e o livro de rol onde são registadas as contas dos clientes devedores, sobretudo pessoas idosas. “Vão pagando umas coisas e levando outras”, diz o merceeiro, tocando no caderno negro riscado, com a lombada presa por pedaços de fita-cola preta.São os anciãos da freguesia que ainda vão mantendo de pé o negócio da mercearia. “Sempre que morre um velhote, desaparece um cliente”, garante Luís Carvalho.Na mercearia do Luís, como é conhecido o espaço, vende-se de tudo um pouco. O feijão nacional, as caras de bacalhau, o atum fresco e os bolinhos secos colocados sob a vitrina saem todos os dias.Há quem venha pelo queijo seco ou chouriço. As prateleiras estão repletas de caixas de gelatina, boca-doce, especiarias e fósforos. Na mercearia vendem-se sacos de carvão, lâmpadas e até tabaco.“Ainda sou do tempo em que se pediam dois tostões de colorau”, ilustra o merceeiro. No tempo em que os sacos de plástico não existiam faziam-se cartuchos de papel pardo para aviar farinha, arroz e açúcar.Na década de 60 a loja do Luís era a mais frequentada em toda a cidade. “Cheguei a ter quatro empregados comigo. Tudo é ultrapassado. Não fiz obra”, diz saudoso à distância de mais de quatro décadas de trabalho.Luís Cipriano Carvalho sente que o comércio tradicional está a morrer. Assegura que a sua loja tem os dias contados. As grandes superfícies invadiram Alverca na década de 70 e desde aí nada voltou a ser como era.O merceeiro teima em ser fiel às tradições. Entre a caixa registadora e a balança Luís Cipriano Carvalho guarda ainda, nostálgico, uma resma de papel pardo. Quando é preciso fazer uma conta o merceeiro deixa de lado a máquina electrónica. Prefere rabiscar num pedaço de papel pardo. Ana Santiago

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