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Triunfante Serafim das Neves

Edição de 29.03.2006 | E-mails do outro mundo
O Museu Nacional Ferroviário, a fazer (?) no Entroncamento, ressuscitou uma vez mais. Por entre brumas de vapor de arruinadas locomotivas surgiu o Conselho de Administração da Fundação que tinha sido criada há um ano, mais coisa, menos coisa. E assim que tomou posse o presidente do tal conselho avisou logo que a coisa vai voltar a hibernar por falta de dinheiro.Esta deve ser a novela mais longa da história recente de Portugal e só é pena que não tenha transmissão televisiva. É certo que os guionistas são fracos e os actores medíocres mas com uma mãozinha do Moita Flores e da sua esposa Filomena Gonçalves podia transformar-se num sucesso. Ali há todos os ingredientes necessários para agarrar o público. Comboios antigos, tricas políticas, lóbis empresariais, desleixo autárquico, manifestações exacerbadas de amor e ódio, liquidação a sangue-frio de material museológico, ideias megalómanas, cenas patéticas, burrices a esmo.E depois há um traço condutor que permite criar suspense, arrastar os acontecimentos ao longo de sucessivas gerações, introduzir novos personagens a cada mudança de plano. Já para não falar na dúvida existencial que marca toda a história. Para que raio se vai fazer um Museu num país onde ninguém visita museus? O Museu Nacional Ferroviário foi criado por uma Lei da Assembleia da República em 1991. A proposta foi feita pelo defunto PRD (Partido Renovador Democrático) e aprovada por unanimidade. A criança ficou órfã pouco tempo depois, como se sabe, porque o PRD desapareceu. A festa e o drama na abertura da história. Um comboio antigo num túnel escuro, uma criança que chora ao colo de uma mãe que estende a mão à caridade. Políticos de fatinho cinzento e gravatas fatelas passam indiferentes a debitar balelas. (Estou inspirado, carago!)Corte na fita e introdução de outro ingrediente. Passamos à fase da megalomania. Um edifício enorme a construir de raiz cuja maqueta esteve exposta na Câmara do Entroncamento anos a fio. Mistério. Como é que se pôde fazer uma maquete se não havia projecto? O Luís de Matos que explique!Pouco depois a fase lobística. Um banco que se quer desfazer de uma fábrica desactivada. O Museu que já é pau para toda a colher, torna-se no hóspede desejado para tão horrendo albergue. A pelintrice continua. Os padrinhos da criança vão-se revezando nos governos mas não abrem os cordões à bolsa. Dão-lhe bênçãos mas não lhe compram enxoval. Surge, vindo de longe o especialista na matéria. Em vez de edifício de raiz ou fábrica desactivada porque não instalar o órfão nuns edifícios arruinados da área ferroviária do Entroncamento? Euforia, celebrações, festas políticas, discursos inflamados à direita e à esquerda, promessas e mais promessas. Uns tostõezinhos para animar. E a ressaca inevitável. O país regressa à crise e o Museu Ferroviário definha.Eu sei que nesta altura já não podes largar esta tragicomédia. Este absurdo mais absurdo que o absurdo total do Gato Fedorento. Aqui vai o resto. Um grande plano de uns carris. Uma erva que rompe por entre as pedras. Germina a ideia de uma Fundação. A palavra tem força. Transporta em si clarins de vitória, bandeiras desfraldadas ao vento. Viva a Fundação, gritam os mais entusiastas. A reboque da Fundação o inevitável Parque Temático dá-lhe o toque de modernidade que faltava. Ai o Parque Temático!!! Mas é sol de pouca dura. Outros valores se levantam. Tudo em banho-Maria outra vez.E eis que senão quando ressuscita o moribundo. Com pompa e circunstância. Cerimónia oficial, discursos e tudo. Entra em ombros a direcção da Fundação. Mas os violinos desafinam ainda antes de os fraques voltarem às casas onde foram alugados. Não há dinheiro. Nem para mandar cantar um cego, como costumava dizer o meu pai quando eu lhe pedia um suplemento especial de mesada. Fico-me por aqui com o conhecido aviso televisivo em vozeirão off: Não percam as cenas dos próximos capítulos! Ao longe, carcomida pela ferrugem e pelos bichos da madeira, desmorona-se uma carruagem antiga. O silvo da locomotiva soa lúgubre e eu aceno-te a partir de uma desconjuntada plataforma de uma decrépita estação chamada Museu Nacional Ferroviário.The EndManuel Serra d’Aire

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