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Arroz ou batatas?

Edição de 29.03.2006 | Opinião
Nos casos de violência doméstica, quase todas as vítimas são as mulheres. O agressor é o marido.Algumas activistas mais ferrenhas tendem a afirmar que há muitos homens que são maltratados por mulheres. Mas, por uma questão de vergonha e por razões culturais, não são apresentadas queixas. Eu tendo a pensar que, efectivamente, a esmagadora maioria das pessoas que sofrem maus tratos são mulheres.Aquilo que os estudos revelam é algo de diferente.Por vezes, após muitos anos de casamento em que o marido foi maltratando a esposa, dá-se algo de singular. O homem começa a ficar debilitado. A mulher tira partido dessa situação e retribui os maus tratos de que foi vítima.Durante mais de duas décadas, um homem tinha espancado brutalmente a mulher. Fazia-o com frequência, por tudo e por nada. Umas vezes, devido a ciúmes doentios. Noutras ocasiões, porque se encontrava embriagado. Quase sempre com um objectivo meio inconsciente: subjugar a esposa. Muitas vezes, insultava-a. Fazia-a sentir que ela não prestava para nada.Sempre se opôs a que a senhora trabalhasse.Mantinha-a numa situação de dependência económica. Amiúde, ela pensava em sair de casa e pôr termo àquele inferno. Mas questionava-se como iria viver, sem dinheiro e sem casa.Até que um dia, o homem contraiu uma doença crónica. Não se tratava de nada que o levasse à morte. Porém, era o suficiente para lhe causar dificuldades de locomoção, impedi-lo de trabalhar, ter dores significativas e carecer de tomar fármacos constantemente, para além de estar sujeito a acompanhamento médico permanente.O rancor que a senhora foi guardando transformou-se em desprezo e rapidamente passou a traduzir-se em violência.Certa vez, estava a aproximar-se a hora do jantar. Marido e mulher tinham tido uma forte discussão momentos antes.Ela encontrava-se na cozinha, a preparar a refeição.O homem abriu a porta e entrou. No fogão, estava o óleo a aquecer.A senhora virou-se para o marido e perguntou:- Queres batatas fritas ou arroz?E ele deu a resposta:- O arroz vais dar-me tu!O indivíduo tinha razão. Se ela já estava a aquecer a gordura, não parecia muito curial indagar se ele preferia batatas ou arroz. Parecia é que o óleo a ferver teria outra finalidade.E tinha mesmo.Ele baixou-se, ao mesmo tempo que dizia esperar levar o arroz. A senhora acabara de lançar o óleo, que não o atingiu por pouco.Um trocadilho bem mais infeliz foi usado por um indivíduo verdadeiramente sádico.O hobby dele era a bricolage. Entretinha-se com pequenos trabalhos de marcenaria, que levava a cabo na garagem da sua residência.Certa vez, a mulher estava com ele naquela dependência. Estalou mais uma das muitas discussões. A ameaça que ele fez, naquele dia, foi bem pior do que qualquer outra que proferira anteriormente.É certo que o homem já tinha dito que lhe limpava o sarampo a ela, que ia buscar a fusca e que a matava. Ia preso, mas ela ia para o cemitério.Desta vez, limitou-se a dizer algo que não parecia muito sério:- Eu já te lixo!O mais grave não foram as palavras. O pior veio quando ele passou aos actos.Agarrou na cabeça da esposa, com a mão direita. Baixou-a e entalou-lhe a cabeça por debaixo do sovaco, prendendo-a com firmeza.Esticou o braço esquerdo e alcançou uma folha de lixa. Esfregou-a na face da sua própria mulher, deixando-a toda ensanguentada.* Juiz(hjfraguas@hotmail.com)

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