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Andam a roubar a nossa memória

Andam a roubar a nossa memória

Almeirim é uma das nove localidades do país procuradas pelos caçadores ilegais de vestígios históricos

Com o recurso a detectores de metais, há pessoas que furtam peças enterradas em zonas com interesse arqueológico para depois as venderem a coleccionadores nacionais e em Espanha.

Edição de 29.03.2006 | Sociedade
Almeirim é um dos concelhos do país mais procurados pelos caçadores de peças arqueológicas. O Instituto Português de Arqueologia (IPA) já recebeu duas queixas contra pessoas que foram apanhadas pela GNR com detectores de metais à procura de moedas antigas, estatuetas e, em consequência, de outros artefactos que pertencem à memória do país. Não se sabe ao certo quantas foram furtadas ao património nacional, nem o seu valor. Mas o presidente da Associação de Defesa do Património Histórico e Cultural de Almeirim (ADPHCA), Eurico Henriques, acredita que há muitos mais casos do que os dois que chegaram ao conhecimento do IPA. Um em 2003 e outro no ano passado. Um dos alvos da pilhagem foi um terreno junto ao Casal Branco entre Almeirim e Benfica do Ribatejo, numa zona com vestígios romanos. O caso mais recente, em Janeiro do ano passado, ocorreu no Monte do Ferro, entre Raposa e Paço dos Negros. As situações foram denunciadas pelos proprietários dos terrenos, o que é caso raro. Eurico Henriques sublinha que as estações arqueológicas do concelho nunca foram preservadas nem pelos proprietários dos terrenos nem pelo município. E sublinha que muitos vestígios foram destruídos pelos tractores que lavraram a terra para a agricultura. “As pessoas não estão sensibilizadas para a preservação dos aspectos históricos do concelho”, realçou o presidente da ADPHCA.Normalmente os caçadores ilegais de peças arqueológicas procuram moedas de cobre, bronze ou prata do período entre o Século I A.C. (antes de Cristo) e o Século IV. Segundo Eurico Henriques os vestígios são depois vendidos em Espanha a coleccionadores. Mas também há em Portugal quem as receba, segundo tem conhecimento o Instituto Português de Arqueologia. A zona de Almeirim é apetecível para esta actividade ilegal porque foi uma zona importante em termos históricos. Uma zona fronteira a Scalabis (Santarém) que registou uma grande ocupação de vários povos e onde eram construídas muitas quintas. Era também uma zona de passagem para o Alto Alentejo.Além de Almeirim, o IPA já registou nos últimos cinco anos casos de furtos de património arqueológico em Vila Real de Santo António, Leixões, Valpaços, Almodôvar, Póvoa do Varzim, Pedrógão (Nazaré), Mértola e Baleizão.O IPA tem noção que os furtos de vestígios históricos “são frequentes”. E para os quais “contribui o facto dos detectores de metais poderem ser adquiridos na Internet e de existirem lojas que os vendem sem observar a legislação em vigor (ver caixa)”, diz a secretária da direcção do instituto, Ana Carla Barata, por incumbência do director Fernando Real.Segundo o instituto, as lojas que vendem os aparelhos, normalmente usados como passatempo nas praias na expectativa de se encontrarem objectos perdidos pelos banhistas, não alertam os compradores de que é necessário possuir uma licença específica para utilização destes aparelhos. No entender do instituto, “por forma a proteger as zonas com interesse histórico”, as câmaras municipais devem colocar placas informativas no local. E deveria dar-se cumprimento ao disposto na Lei 107/01 de 8 de Setembro, nomeadamente o Artigo 3º, de acordo com o qual o Estado, as regiões autónomas e as autarquias locais “deveriam promover o conhecimento, estudo, protecção, valorização e divulgação do património cultural”, refere Ana Carla Barata.
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