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Burlões têm a lição bem estudada

Burlões têm a lição bem estudada

Apresentam-se como ex-alunos e vendem pechisbeque como obras de arte a professores

Apresentam-se como ex-alunos aos professores aposentados e, através desse engodo, têm burlado vários docentes na região.

Edição de 29.03.2006 | Sociedade
“Olá professor, há quanto tempo, como tem passado?”. A pergunta, feita de forma familiar, deixou o professor António Rego desarmado e levou-o a cair num engodo que por pouco não lhe custou mil euros. Outros colegas de profissão tiveram todavia menos sorte, caindo na armadilha do par de burlões que no último mês tem andado na região.Actuam juntos e abordam ex-professores em alternância. Umas vezes é o homem mais velho, na casa dos 60, que dirige o engodo, outras vezes é o mais novo, 30 e tal anos, que aborda os professores aposentados. Ambos apresentam-se como ex-alunos e já burlaram vários docentes da região.Na roleta calhou a António Rego o burlão mais jovem. O ex-professor de Psicologia nos institutos politécnicos de Tomar e Leiria e na Escola Prática de Polícia em Torres Novas foi abordado na tarde de terça-feira, 21 de Março, quando se dirigia ao gabinete de acção social da Câmara de Torres Novas para um reunião da comissão de protecção de menores.“Era um jovem para o alto, seco de carnes, fato e gravata, cabelo cortado rente e bem falante”, diz António Rego. Semelhante aos polícias a quem deu formação na Escola Prática. E foi precisamente a pergunta do ex-professor sobre se lhe tinha dado aulas no estabelecimento policial de Torres Novas que deu ao burlão a “deixa” que precisava.“Disse-me que era polícia na Madeira e mesmo quando eu lhe perguntei por outros polícias, ex-alunos que sabia estarem também na ilha, ele não se descoseu”. Conversa puxa conversa e o homem tira um caixote do carro pequeno e branco em que se deslocava e põe-no nas mãos do ex-professor.“Olhe, vou dar-lhe isto como recordação, para se lembrar de mim. Viemos agora de uma feira e este material sobrou, faço questão de lhe oferecer”, disse o burlão, abrindo uma nesga do caixote e mostrando um par de chifres “de marfim” e uma jarra pintada. O plural da frase fica a dever-se ao segundo burlão, o homem mais velho, que estava sentado no carro. “Nunca falou e só saiu do automóvel para me emprestar a caneta com que passei o cheque”, diz António Rego, visivelmente embaraçado por ter caído na armadilha.Sem perceber muito bem como, “a conversa desenrolou-se em poucos minutos”, António Rego aceitou o caixote. “Até lhe pedi o número de telefone para eventualmente o contactar se fosse à Madeira”. Agindo com uma naturalidade “impressionante” o burlão forneceu-lhe o número de telemóvel e o nome.Um número que, como o ex-professor confirmou mais tarde, correspondia efectivamente à pessoa que se fez passar por polícia. “O nome com que atendeu o telemóvel também era o mesmo, mas deve ser falso”, admite António Rego.Que foi induzido pelo bem falante burlão a ficar com um quadro “valiosíssimo, com uma figura de uma santa em relevo de prata”. “Disse-me que valia quatro mil euros mas vendia-me por dois mil”. Perante a relutância do ex-docente, o burlão acabou por lhe pedir um cheque de “apenas” mil euros.António Rego passou o cheque, pôs os caixotes no carro e despediu-se do falso ex-aluno. O caminho para a reunião agendada foi feito a matutar no que se tinha passado e, já um pouco desconfiado, acabou por contar o sucedido a uma das colegas. Foi ela que, fingindo ser mulher do ex-professor, ligou para o burlão a dizer que não estava interessada no quadro. “A princípio ele mostrou-se tranquilo e até afável, marcou uma hora para devolver o cheque, mas depois não apareceu. E depois de mais dois ou três telefonemas acabou por revelar-se”.António Rego percebeu ter caído num engodo quando o burlão lhe perguntou porque é que tinha cancelado o cheque, dizendo-lhe que ia ter problemas por causa disso. “Nessa altura eu ainda nem sequer tinha falado com o banco, por isso percebi logo que tinha sido enganado”.Pondo um ponto final na conversa, o ex-docente disse ao homem que já tinha entregue os caixotes à polícia e que se quisesse reavê-los teria que ir à esquadra de Torres Novas. O produto foi efectivamente entregue na esquadra da PSP da cidade, depois de António Rego ter cancelado o cheque, visado, no banco. O quadro, a jarra e os dois chifres, tudo de pechisbeque como provaram as análises policiais, continuam na posse dos agentes de investigação criminal da esquadra de Torres Novas.Que na sexta-feira passada identificaram um idoso com as características do burlão mais velho, acabando por o libertar por falta de provas. Os “alunos” burlões continuam à solta.Margarida Cabeleira
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