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A condessa “menina” Teresa

A condessa “menina” Teresa

A mulher que comanda a mítica Casa Cadaval

Teresa Álvares Pereira Schönborn-Wiesentheid, a Condessa que está à frente da Casa Cadaval em Muge tem uma alma latina e um perfil germânico. Irradia simpatia e energia. Ilumina-se quando fala da avó, a famosa Marquesa do Cadaval. Diz que não percebe nada de política mas considera que mais importante que a monarquia é a democracia. Adora Portugal mas nasceu na Alemanha. É trilingue. Em criança o pai falava-lhe em alemão, a mãe em português e a língua comum em toda a casa era o italiano.

Edição de 05.04.2006 | Entrevista
Antes do 25 de Abril dizia-se que o regime salazarista tinha alguma desconfiança em relação à nobreza. Sentiu isso? Nunca me senti constrangida em nada e na altura do drº. Salazar vivia na Alemanha. Sei que ele tinha uma grande consideração pela minha avó. Vejo todos os dias as notícias porque gosto de estar informada no que se passa á minha volta e no mundo. Presumo que preferisse viver numa monarquia. Como já disse sou monárquica por tradição e convicção. Fui educada numa democracia, na Alemanha depois da guerra, claro que a minha posição é a de defender a monarquia constitucional. Ainda á pouco tempo estive em Inglaterra que é uma monarquia antiquíssima como sabemos que aliás é um pólo de atracção turístico muito importante. Penso que o que interessa é que um país seja bem governado, seja ele o governo monárquico ou não. Não há diferença entre Monarquia e República?A Monarquia preocupa-se mais com determinados valores éticos de ordem moral e religiosa e que se estão a perder infelizmente. É sócia da Real Associação do Ribatejo?Sou, mas não me peçam para participar em sessões onde há pessoas horas e horas a falar. Sou sócia mas não participo activamente. Sente-se Condessa?Tenho um título desde que nasci que herdei do meu pai, mas sinto-me uma pessoa perfeitamente normal.As pessoas tratam-na como?Há muitos que me tratam por menina Teresa. É um tratamento carinhoso e respeitoso. São pessoas que me conhecem desde criança. Amigos, trabalhadores. Os mais próximos chamam-me Teresa. Depois há outros que me chamam Dona Condessa. O que é normal, não é?!Dá jeito ter um título nobiliárquico? De vez em quando ajuda mas ser da nobreza não é só facilidades. Há uma carga histórica e moral pesada. O nosso nome tem história. É uma responsabilidade “noblesse oblige”.Tem ligações com a família real portuguesa?Gosto imenso deles todos. Sou amiga e vizinha de D. Duarte. Eles vivem em Sintra, como eu aos fins-de-semana. Toda a minha família sempre foi muito amiga de toda a família real portuguesa. O que sente no 5 de Outubro?O que sente a generalidade dos portugueses. É dia livre.Alguma vez foi convidada para fazer parte das listas de algum partido político? Nunca. Quando vivia na Alemanha só pensava em PortugalNasceu aqui em Portugal? Nasci na Alemanha. Nasci eu e os meus irmãos. A excepção foi o meu irmão Paulo que nasceu em Lisboa. Onde estudou? Fiz o equivalente ao antigo quinto ano do liceu na Alemanha, em Wiesentheid,depois estudei num colégio na Suiça e mais tarde fui para Inglaterra estudar Turismo e Língua Inglesa. A seguir voltei à Alemanha onde acabei o curso de Turismo. Mas cada vez que tinha dias livres vinha cá. Sempre contei os dias para voltar a Portugal. Sempre gostei mais de Portugal do que da Alemanha.O que é que a atraí-a em Portugal?O sol e as pessoas. As pessoas são mais simpáticas nos países latinos do que nos países do norte. Gosto das pessoas, do país. E tinha amigos cá. Além disso havia a Casa Cadaval e os cavalos. Os cavalos estavam cá. O sol estava cá. Aqueles Invernos alemães sempre escuros, cinzentos, com aquela neve. Com aquela lama. Às quatro da tarde já é noite.Não gosta de neve?Adoro ir oito dias, quando está muito frio, fazer esqui mas oito dias apenas. A educação que teve devia ser bastante rígida, formal…Eu adapto-me bem a qualquer situação. Se tiver que ser formal também sou. Mas custa-me imenso. De um modo geral sou descontraída mas também exijo regras.Com pais de diferentes nacionalidades qual é a sua primeira língua? O nosso pai sempre falou connosco em alemão e a nossa mãe em português. Mas entre eles falavam italiano. Está a ver a confusão. Eu não fui bilingue, fui trilingue. Quantas línguas fala? Falo as três que aprendi em criança mais o Francês, o Inglês e o Espanhol. Costumo dizer que falo seis línguas mas todas mal. Na sua juventude era uma jovem sossegada ou também foi rebelde?Eu não era diferente dos outros jovens. Também tive os meus momentos de rebeldia. Quando vinha com os seus irmãos a Portugal costumava brincar com as crianças de Muge?Fazíamos todas as brincadeiras que qualquer criança normal faz. A minha mãe e a minha tia também fizeram o mesmo quando eram meninas. Desde a caça aos gambozinos, montar a cavalo, apanhar tareia dos outros miúdos. Andávamos cobertos de porcaria o dia todo. Só tínhamos que estar lavados e limpos para o jantar, o resto do dia podíamos andar como quiséssemos. E tínhamos sempre que tirar as esporas antes de almoçar. De resto fazíamos trinta por uma linha. Lembro-me de quando éramos mais velhos andarmos de jipe sem carta às escondidas dos nossos pais, eu sei lá.Era castigada quando a apanhavam?Levei alguns estalos dos meus pais e da minha avó. É normal. Mulheres estãohá cinco geraçõesà frente da Casa CadavalPorque é que ficou à frente da Casa Cadaval?Infelizmente a pessoa que decidiu isso já não está cá para explicar. A minha mãe deixou essa determinação. Já trabalhava com a sua mãe aqui?Trabalhei cinco anos na Alemanha e em Portugal no ramo do turismo. Depois uns austríacos pediam-me para ir trabalhar para uma agência imobiliária onde estive durante dois anos. Mais tarde a mãe pediu-me para vir para cá e já cá estou desde 1982. Vim ajudar a mãe que estava a gerir a Casa Cadaval.Sabia que mais tarde ou mais cedo ia ocupar o lugar de administradora?Eu achava que ia ficar aqui mas não nesta posição.A Casa Cadaval é tradicionalmente gerida por mulheres.Sou a quinta geração de mulheres à frente desta Casa. Porque é que isso acontece?Por razões circunstanciais. O meu avô morreu muito cedo com a tuberculose. O pai dele também morreu novo. Assumiu este lugar na sequência de acontecimentos trágicos.A minha avó morreu em Dezembro de 1996. A minha mãe morreu nova, em Junho de 1998. Esteve dez meses a sofrer com uma doença gravíssima, foi muito doloroso para mim. O meu pai morreu seis semanas depois. 1998 foi um ano trágico. E eu tive que assumir as rédeas da Casa Cadaval. Era muito mais fácil sermos dois ou três do que ser um. As responsabilidades caem todas em cima de mim.Que dificuldades sentiu nessa altura?A gestão era feita pela minha mãe. Eu era o número dois. E essa posição é mais confortável. Quando se chega a número um tem que se pensar muito bem nas coisas que se fazem, porque já não se tem o apoio. Já não se têm as costas quentes.Os seus irmãos aceitaram bem esta situação?Somos uma família muito afastada em termos de distância mas muito próxima afectivamente. E somos todos muito unidos. Os irmãos vivem em Portugal? Todos temos casa cá, mas os únicos que residem em Portugal são o Filipe, que casou com uma francesa, e eu. A minha irmã casou com um alemão mas vem muito a Portugal. Os filhos dela falam todos português. O meu irmão Paulo está casado, outra vez, com uma italiana que, curiosamente nasceu no Peru. Agora vive na Francónia (Alemanha). Alberto BastosAntónio Palmeiro
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