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O admirável mundo das velharias

Victor Pinheiro da Silva, o antiquário de Vila Franca de Xira

Aos 20 anos Victor Pinheiro da Silva começou a procurar porta a porta objectos antigos que restaurava e vendia. Uma prática contínua ao longo dos últimos 53 anos em que vendeu um sem fim de peças com história.

Edição de 05.04.2006 | Identidade Profissional
Na loja de Victor Silva respira-se ar de outros tempos. Peças do século XVII ao XX, desde relógios de parede, armários, candeeiros e mesas, a peças de arte sacra, serviços de chá e jarras, impregnam o ambiente de um odor a velho que o antiquário tanto aprecia. Victor Silva diz que a paixão por antiguidades nasceu com ele. O bichinho esteve sempre lá e aos 20 anos ganhou asas e levou o antiquário de Vila Franca para um mundo novo feito de coisas velhas. Até há oito anos atrás a venda de peças antigas era feita em part-time, já que Victor Silva trabalhava num estabelecimento comercial. Foi aos 65 anos, depois de reformado, que pôde, finalmente, dedicar-se por inteiro à actividade que sempre o cativou.A contínua aprendizagem que o trabalho com as antiguidades possibilita é o que mais fascina Victor Pinheiro. Com os objectos que lhe foram passando pela mão ao longo dos anos ficou a conhecer hábitos de outros tempos, conseguindo, assim, aprender muito mais sobre determinados períodos da história local e nacional. No início começou por ocupar os fins-de-semana e feriados a percorrer “montes e vales” à procura de peças antigas, sempre na companhia da mulher. Batia à porta de uma habitação, ao acaso, explicava quem era, o que pretendia e as pessoas abriam-lhe a porta e vendiam o que tivesse interesse para o antiquário. Levava depois as peças para o armazém que tinha e ia vendendo. Muito mais do que hoje, desabafa com um profundo suspiro de desilusão. Na altura, “trazia uma peça num dia e vendia-a no outro. Hoje está praticamente parado”. De entre as inúmeras peças carregadas de história que lhe passaram pelas mãos, Victor Silva recorda um espelho proveniente de Veneza, do qual gostou muito, e um gramofone que não queria perder, mas que a falta de dinheiro obrigou a vender. Do rol de recordações dos 53 anos de actividade sai ainda o dia em que encontrou numa das casas a que foi bater dois pratos da Companhia das Índias a serem utilizados como pratos de vasos. Ofereceu então 200 euros à proprietária que, depois de saber que eram valiosos, não quis vender. Para além da venda, Victor Silva dedicou-se também ao restauro de peças, porcelanas, móveis, quadros ou outros objectos, que se encontravam em mau estado. Autodidacta, muniu-se de vários livros e consultou “as pessoas mais velhas que me aconselhavam sobre a melhor maneira de reparar determinadas peças”. Actualmente, o restauro está a apresentar-se como uma actividade muito dispendiosa, já que os produtos necessários são caros e a procura de peças antigas é cada vez menor. De entre as inúmeras velharias que tem na loja, Victor Silva tem particular afecto por um armário ao qual se dedicou dois meses em trabalhos de restauro. Uma cómoda com cerca de 200 anos que serviu para guardar paramentos, vestes dos padres, está com o antiquário há 10 anos e também foi restaurada. Está à venda pela módica quantia de 4.000 euros, sendo o objecto mais caro na loja. Actualmente, um relógio do século XVII é o centro da sua atenção. Há um mês que começou o restauro desta relíquia, mas a antiguidade da peça faz Victor Silva temer que não consiga arranjá-lo por não existirem peças semelhantes. As louças feitas na antiga fábrica de Sacavém têm um lugar especial na loja do antiquário. Segundo Victor Silva, estas louças serão “a futura Companhia das Índias portuguesa”. Sara Cardoso

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