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A traição dos símbolos e a (in)compreensível persistência no erro

Edição de 05.04.2006 | O Mirante dos Leitores
O menos que se pode dizer é que Santarém nunca foi rica em estatuária, em quantidade ou em qualidade, digamos que o pouco existente era até certa altura profissionalmente honesto se se puser em destaque o magnífico rosto do Padre Francisco da Silva. Nos últimos anos porém as coisas complicaram-se. Nada de mais compreensível que uma cidade preste homenagem áqueles que de uma maneira ou de outra em se ilustrando a ilustraram também ou lhe prestaram serviço, quer nela tenham nascido ou não. Mas, a intenção, como quase sempre, não chega, sobretudo se ela se concretiza através de obras plásticas do tipo das que estão aqui em questão e que por serem esculturas fazem que o seu interesse ultrapassa em muito a simples homenagem que provocou o seu aparecimento, porque entram no campo da arte e da estética. E não só. Há o poder do símbolo. O busto de Guilherme de Azevedo é disforme. Tive a ocasião de ouvir uma senhora exclamar com espanto:- Ele era mesmo aleijado?- E aquele que suponho seria o marido de rapidamente a puxar pelo braço, afastando-a:- Não te preocupes mulher, deixa isso. O incidente podia levar-nos a considerações de outra ordem mas retenho apenas o facto que a senhora exprimiu bem o que há anos muita gente vê mas que não ousa manifestar. Convite aqueles que não repararam de a olharem com mais atenção. E os responsáveis pela cultura? Também não deram por isso? Quanto a Salgueiro Maia, o monumento que lhe foi dedicado é uma traição onde dificilmente se admitirá a inadvertência ou a imperícia. Os símbolos que se pretendem (?) exaltar e que em pessoa ele efectivamente representou, a abnegação, a coragem, o espírito de liberdade, o apego à democracia e profundo desejo de paz, foram, através de uma estátua sem vigor, inexpressiva, mole, sem ritmo nem movimento e enquadrada por inquietante máquina de guerra, travestidos e recuperados em duvidosa ode ao militarismo mais grosseiro, triste arte que se julgava já caduca. Agora pretende-se instalar o conjunto num jardim onde só vai roubar espaço sob um arco onde se ficará a saber que Santarém è a capital da Liberdade. E esta? À força de querer ser a capital de tanta coisa, só temo que acabe por se tornar na capital do Ridículo. Permito-me uma sugestão: E se em lugar do “monumento” projectado se colocasse uma bela fonte verdadeira, contemporânea, com água potável e tudo? A fonte Salgueiro Maia no Jardim da Liberdade não seria mais justo e coerente? E tudo mais fresco e bonito?Marques da Costa

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