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Subir trinta e sete degraus para ir ao médico

Centros de saúde sem condições para os utentes

Doentes idosos e com dificuldades têm de subir 37 degraus para chegar ao médico de família em Alhandra. Em Vila Franca e Castanheira, os centros de saúde também funcionam em andares. Alguns médicos descem à porta para consultar os doentes.

Edição de 05.04.2006 | Sociedade
Apoiada na bengala e sem largar o corrimão, Maria Rijo Frita vai subindo, vagarosamente, as escadarias do edifício onde está instalado o Centro de Saúde de Alhandra. São 37 degraus que tem que enfrentar até ao segundo andar para a sua consulta. Alguns minutos depois alcança finalmente a sala de espera onde descansa da longa e dolorosa subida. A idade avançada e o facto de ter partido uma perna há dois anos tornaram a locomoção uma tarefa difícil para a octogenária. Subir e descer as escadas do centro de saúde representa um verdadeiro esforço e por isso reclama um elevador para o prédio. Maria Rijo Frita é apenas uma entre os milhares de utentes que nos centros de saúde de Alhandra, Castanheira do Ribatejo e Vila Franca de Xira se deparam com escadarias que muitas vezes parecem intermináveis. Estes centros de saúde encontram-se instalados em prédios de habitação, estando longe de oferecer as condições ideais para os utentes. Para Madalena Oliveira, de 64 anos, subir as escadas do Centro de Saúde de Vila Franca de Xira é “uma doença” já que a artrite lhe limita os movimentos. “O pior, ainda é o primeiro lance de escadas que nem tem corrimão”, diz. O elevador seria, para esta utente, a melhor solução, até porque “o prédio tem espaço suficiente para ele”.No Centro de Saúde da Castanheira o cenário repete-se. Com 67 anos e um pé deficiente, António Artilheiro sente muitas dificuldades em subir até ao primeiro andar do edifício. “E quando chegam em cadeiras de rodas tem que ir o doente às costas de um e a cadeira às costas de outro. É absurdo que um espaço público, ainda por cima para cuidar das pessoas não tenha condições”, refere indignado.Francisco Sales, de 84 anos, recorda o dia em que teve um enfarte e que foi levado ao colo para o rés-do-chão do Centro de Saúde de Alhandra onde o médico desceu para o poder examinar. Isto passou-se há nove anos, mas ainda na semana passada Francisco Sales diz que assistiu a uma situação semelhante. A indignação pela falta de condições nos centros de saúde estende-se ao pessoal médico. Segundo José Neves, médico no Centro de Saúde da Castanheira, as pessoas estão “extraordinariamente condicionadas”, o que faz com que muitas vezes acabem por nem se deslocar ao centro devido às limitações. “É um prédio de habitação que foi adaptado, não oferece as mínimas condições”, refere. Por isso, José Neves diz que todos os dias os médicos do Centro de Saúde da Castanheira se deparam com situações em que têm que descer ao rés-do-chão para atender utentes. Outras vezes são obrigados a fazer consultas ao domicílio por o centro não ter condições para receber os doentes.Novas infra-estruturas tardamO Centro de Saúde da Castanheira é provisório há cerca de 40 anos e foi criado para satisfazer as necessidades de 1500 utentes. Actualmente, a população da Castanheira ronda os 7200 habitantes, sendo este centro manifestamente insuficiente para as necessidades da vila. A construção do futuro centro de saúde arrancou já em 2001, com um prazo de execução de nove meses, mas passados quatro anos ainda não está concluído. No entanto, a sub-região de saúde de Lisboa já garantiu que no primeiro semestre deste ano o novo centro estará terminado. Menos sorte têm os utentes dos centros de saúde de Alhandra e de Vila Franca de Xira. A sua construção está já prevista, mas os projectos não foram ainda lançados. O Centro de Saúde de Alhandra funciona há mais de 30 anos num prédio no centro da vila e o de Vila Franca de Xira tem valências espalhadas por dois edifícios na cidade, uma com 40 e outra com 30 anos. Para Vila Franca está prevista a adopção de um novo modelo de centro de saúde, o das unidades familiares de saúde, proposto pelo Governo. Segundo a presidente da autarquia, ainda este mês deverá haver novidades sobre estes projectos.Mas até que os projectos das novas unidades de saúde passem a ser uma realidade, os utentes vão continuar a enfrentar escadarias para serem atendidos. De acordo com Maria da Luz Rosinha, a câmara municipal tem contactado com o proprietário do prédio onde está instalada a principal valência do Centro de Saúde de Vila Franca para que seja colocado um elevador.No entanto, segundo adianta, o dono recusa a instalação de um elevador por considerar que o prédio não tem condições para o albergar. Em relação ao de Alhandra, a autarca diz que a instalação de um elevador obrigaria à eliminação de uma sala em cada piso, o que não seria viável. Sara Cardoso

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