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O empregado virtual

Edição de 12.04.2006 | Opinião
Todos os meses, lá se vão quinhentos euros de salário. Mas nunca ninguém o viu a trabalhar na estação de serviço. É o empregado virtual.Os negócios de uma estação de serviço já não se resumem a abastecer os veículos.Antigamente, lá calhava vender-se uma lata de óleo de vez em quando ou uma garrafa de água destilada de tempos a tempos.Hoje em dia, toma-se lá o pequeno-almoço, compram-se uns livros, levam-se DVDs, adquire-se o jornal e não se esquece o maço de tabaco.As caixas Multibanco tendem a ser colocadas o mais longe possível, ao fundo da loja. Força-se o cliente a passar por alguns objectos expostos, que podem vir a merecer a sua atenção.De manhã, ao balcão encontram-se empregadas do sexo feminino. A simpatia e a atenção são os aspectos mais importantes.Pela noite, são colocados homens, que inspiram segurança e confiança.Por isso se diz que é um negócio de tostões que rende milhões.No domínio da criminalidade, também as coisas sofreram alterações.Outrora, chegavam uns indivíduos com caçadeiras de canos serrados.O gasolineiro tinha consigo uma sacola cheia de dinheiro. A este somavam-se as notas guardadas na caixa registadora. Por dá cá aquela palha, disparava-se sobre o empregado da bomba. Ou porque ele esboçava um gesto de resistência, porque se mostrava pouco colaborante a entregar o dinheiro ou apenas por receio de ele vir a reconhecer os bandidos.Era tudo em proporções mais avolumadas: o número de ladrões, as armas utilizadas, o produto do assalto e a pena aplicada pelo tribunal, no caso de serem capturados os criminosos.Agora, as existências em numerário são muito reduzidas.Por um lado, quase toda a gente paga com cartão. Depois, quando a caixa já tem notas cujo total se aproxima dos quinhentos euros, o empregado coloca-as num receptáculo apropriado. Permite introduzir o papel-moeda, mas já não se torna possível retirá-lo, a não ser com recurso à chave, que se encontra em poder do responsável pela sua recolha durante o dia.Poucas estações de serviço dispõem de gasolineiro, que procede ao abastecimento.Presentemente, as coisas resumem-se a furtos de gasolina cometidos por condutores que abastecem as suas viaturas, em regime de auto-serviço. Mas não passam pela caixa registadora para solver o pagamento. É como se fossem ao supermercado e levassem umas lâminas de barbear, sem pagar.Ao fim do mês, faz-se a conta ao combustível que ficou por pagar. O montante equivale ao ordenado do tal empregado virtual.Já houve um sistema que consistia em proceder ao pagamento junto à saída da estação de serviço. Os veículos colocavam-se em fila. Sem sair da viatura, o condutor efectuava o pagamento, no guiché semelhante ao das portagens. Depois, o empregado abria a cancela.Demorava-se tempo. Era um sinal de desconfiança, lançando suspeita sobre todos os clientes.Acabaram-se as cancelas. Os automobilistas evitavam estes locais.O pré-pagamento tem este último inconveniente. Pagar primeiro e servir-se depois significa que se está com receio de que o cliente seja um ladrão.Há comerciantes que actuam subtilmente, sobretudo a partir de certas horas mais tardias.O abastecimento fica bloqueado. O empregado da estação de serviço verifica o aspecto do cliente. Tem ou não cara de bandido?Se não levantar suspeitas, acciona o mecanismo que permite o abastecimento.Depois, pede desculpa ao cliente, dizendo que se esqueceu de desbloquear aquela bomba.As câmaras de vigilância permitem detectar a matrícula do veículo. É fácil apresentar queixa-crime contra o seu proprietário. Numa ou noutra situação, a chapa é falsa.* Juiz (hjfraguas@hotmail.com)

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