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O sonho de uma vida

Maria Celeste Carqueja precisa de uma cadeira de rodas adaptada

Há 59 anos que Maria Celeste Carqueja se arrasta de joelhos pelas ruas de Muge. O seu sonho é uma cadeira de rodas adaptada. Para conquistar a dignidade e o descanso merecido.

Edição de 12.04.2006 | Sociedade
Na pequena aldeia de Muge, concelho de Salvaterra de Magos, toda a gente conhece Maria Celeste Carqueja. É difícil apagar da memória a imagem da mulher que se arrasta de joelhos com a ajuda das mãos. É assim há 59 anos. Maria Celeste Carqueja nasceu com um problema genético nos membros inferiores que lhe tolheu para sempre os músculos e os movimentos das pernas.Há três anos a Segurança Social atribuiu-lhe uma cadeira de rodas, mas o esforço físico é demasiado intenso para o corpo da mulher. Os braços já não aguentam o movimento de fazer rodar a cadeira. À noite as dores nos ossos roubam-lhe o descanso merecido.Uma instituição de solidariedade atribuiu-lhe temporariamente uma cadeira eléctrica, demasiado alta, que já lhe provocou algumas quedas. A sua última esperança são as tampinhas (ver caixa). Maria Celeste Carqueja ouviu falar da campanha no ano passado na televisão e desde aí que reúne no quintal centenas e centenas de tampas de sumos, águas, iogurtes e detergentes. Acredita que é possível conseguir uma cadeira de rodas eléctrica e adaptada ao seu corpo e às suas necessidades. Já juntou cerca de três toneladas com a ajuda de amigos, familiares e da Sociedade Filarmónica União Samorense, de Samora Correia (Benavente).Enquanto o seu maior sonho não se realiza a vida continua por detrás da pequena porta de ferro preta, à beira da Estrada Nacional 118. Maria Celeste aparece do outro lado, apoiada num quadrado de cortiça com uma pega em pele. É o cubo que lhe protege a mão dos atritos que encontra pelo chão. Quando as dores não lhe limitavam os movimentos Maria Celeste Carqueja fazia sozinha a manutenção da casa, propriedade da Casa Cadaval. Caiava as paredes pendurada num banco sobreposto à mesa da cozinha e ia ao gás à loja do lado. Levava a garrafa vazia a rebolar. Trocava-a por uma cheia e voltá-la a fazê-la rolar até à sua porta.Hoje começam a faltar-lhe as forças. As peças de roupa do marido e do filho, portador de trissomia 21 (ver caixa), são passadas aos bocadinhos. Estende um cobertor no chão e é lá que vai engomando as camisas e calças. “Passo duas peças e atiro-me para o chão cheia de dores”, confessa.Foi entre as paredes da pequena casa térrea que viveu toda a vida. Em pequena dormiu sobre um colchão de palha coberto com serapilheira. Comeu muitos dias da caridade das famílias das amigas. Muitas vezes foi deixada na rua pelos pais mergulhados no drama do alcoolismo. Os problemas de violência doméstica nunca lhe saíram da cabeça. Ainda não tinha 25 anos quando os pais morreram. A mais nova de seis irmãos ficou entregue à sua sorte.Seis meses depois o destino unia-a àquele que é o seu maior amigo e companheiro há 34 anos. Pai dos seus dois filhos. Há mais de uma semana que a mulher percorre os corredores do Hospital de Santarém para visitar o marido, recentemente operado às duas pernas. Maria Celeste Carqueja lembra-se e vai até ao quarto beijar a foto daquele que desde a infância foi sempre o seu verdadeiro amor.Amanhã é dia de visita no hospital. Maria Celeste Carqueja vai ver o seu companheiro arrastando-se pelo chão frio dos corredores brancos. Mas tem esperança de que a cadeira não demore muito a chegar.Ana Santiago

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