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“Quando te acomodas já não incomodas”

António Avelar de Pinho, letrista de canções, escritor, produtor, maluco e tudo

António Avelar de Pinho foi fundador de dois grupos que marcaram a música portuguesa nas décadas de sessenta e setenta. Filarmónica Fraude e Banda do Casaco. Tem mais de seiscentas letras de canções musicadas. Produziu artistas tão diversos como Rui Veloso ou as Doce. É mentor do célebre Avô Cantigas. É um dos autores, nesta altura o único, da colecção juvenil Os Super 4. Cultiva uma saudável irreverência e é maluco por jogos de palavras. Deu-lhe um gozo tremendo tropeçar, a meio da conversa com O MIRANTE, no título desta entrevista. É natural do Entroncamento.

Edição de 19.04.2006 | Entrevista
Como era o Entroncamento na altura da sua infância?Eu noto pouca diferença entre o Entroncamento de então e o Entroncamento de agora… Cá vem a minha má-língua. Há mais casas, mais lojas. De resto é tudo igual. Não há uma livraria a sério, não há vida cultural. Eu nunca gostei muito do Entroncamento. Um dia destes viajei de comboio entre Lisboa e Pombal. Optei por viajar num Alfa por pensar que era mais rápido. Atrasou-se vinte minutos. Fazendo um pouco de ironia amarga, o Entroncamento perdeu-se no tempo porque sempre se regeu por militares e comboios. Quando era criança não gostava do Entroncamento?Quando somos crianças não pensamos nessas coisas. Ir a pé da casa dos meus pais até à escola do Bairro Camões era uma festa. Uma coisa absolutamente extraordinária. Lembro-me que passava sempre pela padaria do meu pai, cravava duas arrufadas, guardava-as para comer mais tarde na escola, mas quando lá chegava já estavam comidas com a ajuda de colegas. Era um menino bem. Sim, nesse tempo ter uma padaria era uma coisa importante.Afinal sempre tem boas memórias do Entroncamento.É claro que tenho. A escola primária é dos períodos mais encantatórios das nossas vidas. É o único período em que não há classes sociais. Naquele tempo não havia. Lembro-me do professor Torres, das brincadeiras com os amigos.Qual era a sua brincadeira favorita? Eu era craque no peixe voador. Peixe voador salta um, peixe voador salta dois, peixe voador salta três. Havia dois mais matulões que pegavam em mim pelos ombros, vinha em corrida, fazia um batimento e saltava por cima dos que estavam de cócoras em fila indiana até ao outro lado. Quando se acabaram os anos felizes? Quando os meus pais, vá lá saber-se porquê, depois da primária, decidiram meter-me no Colégio Militar em Lisboa, que é um dos meus ódios de estimação ainda hoje.Era bom aluno?Eu só soube o que era ser mau aluno no primeiro ano do Colégio Militar, porque chumbei logo. Aquilo era tenebroso. A instrução militar era uma coisa horrorosa. Castigos e algumas sevícias complicadas. Chumbar foi uma reacção a ter perdido aquela liberdade de ir para a escola, voltar da escola. Foi um trauma?Teve utilidade porque aprendi a detestar a tropa. Vou dizer uma coisa ingénua mas aos 59 anos eu gosto ainda de ser um bocadinho ingénuo. Tudo o que é tropa é uma coisa a abater. A abater, entre aspas. A acabar. A tropa é uma coisa perniciosa. Mas sair do Entroncamento também deve ter tido aspectos positivos.Claro. Vir para o Colégio Militar também me abriu horizontes.Fez amigos no Colégio Militar?No colégio havia uma grande camaradagem. Fiquei a odiar a tropa com esta tal ingenuidade, mas fiz lá amigos que mantenho. Voltou a entrar no Colégio Militar?Fui lá há pouco tempo. Convenceram-me a ir lá ao fim de 45 anos. Os meus amigos da época tiveram que fazer um esforço mas fui. E confesso que passei um dia divertido porque abarracámos logo um bocado com o comandante. Descemos para os 12,13, 14 anos e abandalhámos mesmo o dia. É este espírito infantil que eu faço questão de não perder e que às vezes causa alguns frissons, mesmo na família.Já falou de ingenuidade, de espírito infantil…Se perdemos o espírito irreverente, mas ao mesmo tempo inocente e malandro da nossa criancice e adolescência e nos tornamos excessivamente adultos está tudo estragado. Eu tenho grandes chatices, grandes birras com os meus amigos adultos porque sou um bocado desalinhado. Ainda guardo um bocado dessa irreverência e isso faz-me bem. Julgo eu que me faz bem. Pelo menos tenho-me dado bem com isso.Quando veio para Lisboa o Entroncamento já era conhecido por ser a terra dos fenómenos. Teve problemas com isso? Quem é que não tem problemas por ser de uma terra conhecida pelo seu ridículo. Comecei a ter vergonha de dizer que era do Entroncamento. Mas isso está ultrapassado há muito tempo. O Entroncamento é que ainda não se libertou disso, se calhar.Aos fins-de-semana continuava a ir ao Entroncamento. As memórias dessa altura são diferentes, calculo.Foi quando comecei a ter consciência que aquela era a tal terra parada no tempo de que falava há pouco. Havia um presidente da câmara que esteve toneladas de anos no poder. O José Duarte Coelho. Um homem estupidamente conservador. Vestia-se à ribatejana. Usava safões e tudo. Quando ele chegava à pastelaria Ribatejo eu tinha sempre uma leve sensação que ele tinha o cavalo à porta. Como se manifestava a sua irreverência num país conservador e fechado?O tal José Duarte Coelho bebia sempre umas tacinhas de vinho branco, como se estivesse a beber champanhe. Um dia eu entrei e pedi um copo de leite e ele aproveitou para se meter comigo. “Não tens vergonha, um futuro militar, menino de copo de leite?!” Eu teria os meus 14 ou 15 anos e respondi-lhe. “Eu tinha era vergonha de andar vestido como o senhor e usar essas sobrancelhas”. Ele usava umas sobrancelhas muito peludas e ridículas. Dizer uma coisa daquelas na pastelaria junto de respeitáveis cavalheiros que estavam ali à volta do Presidente da Câmara, entre eles o meu pai, não era muito normal. Nunca teve problemas com a polícia?A única vez que fui chamado à polícia foi no Entroncamento. Mais ou menos por essa altura ou talvez um pouco mais tarde fiz uma discoteca numa padaria velha que o meu pai tinha a caminho do Bairro. A Padaria do Poço Novo. Um dia pedi-lhe aquilo emprestado e com os amigos arranjei o espaço para fazermos ali as nossas festas, passagens de ano, carnavais. Nem sequer havia electricidade. Foi uma vizinha da frente, uma senhora muito simpática que nos deixou ligar um fio a uma tomada lá de casa. A discoteca chamava-se O Forno.Actividades altamente subversivas. Comprávamos uma revista de música que era a FAB, recortávamos as fotografias para colar nas paredes. Para a polícia haver ali umas festas era suspeito. Chamaram-me lá para perguntar o que fazíamos, que conversas tínhamos. Mas não aconteceu nada. Quando é que perde a sua ligação ao Entroncamento? Quando vim para o Técnico estudar o meu pai muda-se para Almada. Ele desilude-se muito com o Entroncamento quando acontece aquela fusão das panificações. E acontece em todo o país por sugestão do Grémio dos Panificadores. O meu pai entrou naquilo com alma e coração e ter que lidar com sócios não foi uma boa experiência. Porquê Almada? Porque a minha tia Fernanda, irmã da minha mãe, regressa de Angola e vai viver com o marido para Almada. Ali compram uma livraria em sociedade com o meu pai. E eu ando dois anos numa motoreta comprada pelo meu pai a caminhar de Almada para o Técnico durante dois anos. São dois anos a marcar passo. Não sei o que me deu para me matricular em engenharia. Ainda volta ao Entroncamento?Curiosamente vivi no Entroncamento com a minha mulher, Maria do Céu, na altura em que estive na tropa em Tancos. Vivemos em casa dos pais dela que na altura estavam em Lisboa. O pai dela era o dono da Valura. Mas nesse período era de casa para o quartel e pouco mais. Quando muito íamos ao cinema uma vez por outra. E aos fins-de-semana vínhamos para Lisboa. Alberto Bastos

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