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Encher a carrinha

Edição de 19.04.2006 | Opinião
Há uns seis anos atrás, uma série de quintas no Ribatejo foram sendo sucessivamente assaltadas.Os gatunos aproveitavam-se do facto de as casas se encontrarem desabitadas.Transportavam antiguidades e obras de arte. O peso e o volume não constituíam obstáculo.Eles eram em número suficiente, dispunham do tempo de que precisavam e serviam-se de carrinhas com espaço satisfatório.De modo que levavam cómodas, aparadores, quadros, porcelanas, relógios e objectos em prata.Não foi difícil localizar algumas destas peças em antiquários de Lisboa.A dificuldade era a seguinte.Os comerciantes não se encontravam de má fé. Adquiriam aqueles objectos a preços normalíssimos. Os indivíduos que lá surgiam apresentavam-se como legítimos proprietários das peças. Exibiam o bilhete de identidade e o cartão de contribuinte.Os antiquários registavam o nome do vendedor e tomavam nota dos números dos documentos de identificação.O problema é que isso não parecia tão evidente para os polícias, naturalmente desconfiados em relação a tudo.O nome do alegado proprietário do objecto era sempre falso. Também o número do bilhete de identidade e do cartão de contribuinte não correspondia ao de ninguém com aquela identificação.De modo que, durante algum tempo, os comerciantes permaneceram sob suspeita. Será que faziam parte de alguma rede que envolvia os ladrões?Até que, um dia, alguns dos meliantes foram capturados por mero acaso.Eles já quase tinham esgotado as propriedades do Ribatejo.Tinham ouvido falar de uma quinta em Sesimbra, onde se guardavam peças de valor.Resolveram dar lá um salto.Actuaram como sempre. Em conjunto, formando um grupo adequado para carregar coisas pesadas. Com uma volumosa carrinha, para transportar objectos grandes. Calmamente, com vagar, como se justifica perante uma casa desabitada.Só que, desta vez, estavam a agir numa zona bem movimentada. Mesmo junto a uma rotunda que constitui o único acesso a uma das praias mais populares do país. Pertíssimo de um restaurante famoso, de onde entram e saem pessoas constantemente.Tinham mesmo de ser capturados.Eles deram com a língua nos dentes. Realizaram-se buscas às suas residências. Foram localizados vários bilhetes de identidade e cartões de contribuinte falsificados. Estes documentos eram os utilizados para iludir os antiquários.Tornava-se necessário apurar como tinham eles obtido os documentos falsificados.Eles não se tinham limitado a comprá-los. Era mesmo um elemento daquela rede que os fornecia.Tratava-se de um jovem, brilhante engenheiro informático, que era o cérebro de toda aquela organização.Quando a polícia foi à procura dele, já não o encontrou. Ao que consta, terá fugido para o Brasil.Alguns dos objectos tinham sido recuperados juntos dos antiquários e devolvidos aos seus donos.Quanto à maioria das peças, perdeu-se o seu rasto.Ora tal gerou vários processos de indemnização contra os criminosos.Relativamente às peças que os legítimos proprietários conseguiram reaver, os antiquários reclamavam a devolução do montante que tinham pago pelas mesmas. Eram milhares de contos.No que respeita aos objectos cujo paradeiro já era desconhecido, as vítimas dos assaltos exigiam o pagamento do seu valor.Aqui entra-se num domínio altamente subjectivo. O perito nomeado pelo tribunal dá o seu parecer, que normalmente diverge da posição da parte que pede a indemnização. Proceder a uma avaliação é sempre algo de muito controverso.Já quanto à autenticidade de uma obra de arte – por exemplo, uma pintura – as coisas são bem mais simples e objectivas.A radiografia, a retrografia e os exames de ponto permitem detectar com exactidão se a obra é verdadeira ou falsa.Juiz (hjfraguas@hotmail.com)

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