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Do Arripiado até Constância para benzer um barco

Do Arripiado até Constância para benzer um barco

No cortejo fluvial das festas de Nossa Senhora da Boa Viagem
Edição de 19.04.2006 | Sociedade
Segunda-feira, 17 de Abril. Às 12h00 em ponto o barqueiro João Maria dos Santos puxa a corda que acciona o motor do barco da Câmara da Chamusca atracado no cais do Arripiado. O tesoureiro da Junta de Freguesia de Carregueira, António Silva, prepara a máquina fotográfica para registar mais uma peregrinação até Constância, no âmbito da tradicional festa de Nossa Senhora da Boa Viagem.O barqueiro indica os lugares aos quatro jovens do rancho folclórico da Sociedade Recreativa Arrepiadense. Depois de toda a gente acomodada nos bancos pintados de azul, por baixo de um toldo às riscas amarelas e brancas, o barco acelera até ao meio do Tejo e junta-se a uma dezena de outras embarcações que vêm do cais de Tancos, concelho de Vila Nova da Barquinha. “Sigam aquele barco que é de um senhor de Vila Nova da Barquinha e conhece bem o rio”, aconselha o organizador da viagem . Vão ser cerca de seis quilómetros rio acima.O barco da autarquia, usado para fazer o transporte de pessoas entre o Arripiado e Tancos, balanceia na ondulação. O vento agita a bandeira do município no cimo do mastro branco que só é colocado no dia em que participa nas festas de Constância em honra de Nossa Senhora da Boa Viagem. Bandeirinhas de papel azuis, verdes, brancas dançam nas cordas que partem do cimo do mastro para a popa e proa da embarcação. Cinco minutos depois começa a viagem que demora uma hora. Num pequeno barco, quatro rapazes navegam numa enorme algazarra de chocalhos e apitos. Um deles mete uma garrafa de vinho à boca. Mais atrás segue uma pequena embarcação que parece uma casca de noz. O barqueiro enverga um chapéu de marinheiro. Por duas vezes por pouco que não bate no barco da Chamusca, quando a ondulação o empurra. João Maria dos Santos vai contando que o pai tinha um barco igual àquele que está a conduzir. “Era usado para transportar cortiça para Lisboa. Mais tarde foi também usado para trazer pedras que foram colocadas na maracha, para evitar rombos nas margens quando vinham as cheias”, conta o barqueiro de 63 anos. “Há mais de 30 anos fui ajudante de barqueiro. Depois fui trabalhar para a agricultura e mais tarde voltei a esta actividade”, acrescenta o barqueiro que lembra que só há vinte anos é que os barcos das zonas da Chamusca e da Barquinha sobem o rio para a bênção dos barcos. “Antigamente era raro irmos até Constância, mesmo na faina da pesca”, recorda.Vera Sofia Medrôa, de 16 anos, abotoa a camisa até ao colarinho. O dia é de Primavera mas o vento no meio do rio é frio. A dançarina do rancho do Arripiado gosta de fazer a viagem. Adora a paisagem, o colorido dos barcos. “Tão giro”, exclama quando vê, junto ao castelo, de Almourol dois patos dentro de água. À passagem pela Praia do Ribatejo dois homens na margem tiram as boinas da cabeça e acenam. Alguns participantes respondem agitando as mãos. “Aqui já há mais corrente”, observa António Silva, maquinista de profissão, que meteu um dia de férias para poder fazer a viagem. Percorridos dois terços do caminho, quatro barcos juntam-se ao cortejo. Aproximamo-nos da ponte ferroviária junto à fábrica de celulose do Caima. João Maria dos Santos mete-se de pé para ver melhor por onde encaminha o barco. “Aqui é perigoso. Há muitas pedras”, explica. Passada a ponte os barcos começam a virar à esquerda para entrar no rio Zêzere. Nas margens estão centenas de pessoas à espera. Os barcos começam a atracar ao som de foguetes. Ouve-se uma banda de música. Já em terra firme o tesoureiro da junta de freguesia confidencia com o barqueiro: “Agora sim, só demorámos uma hora”. É que nos outros anos como o barco tinha um motor menos potente, a comitiva tinha que sair uma hora e meia adiantada para chegar a horas a Constância.Às quatro da tarde, antes do regresso ao ponto de partida e depois de um almoço fornecido pela Câmara de Constância, os barcos são benzidos durante uma missa solene.
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