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Mães são as verdadeiras heroínas

Mães são as verdadeiras heroínas

O drama e sofrimentos das famílias dos toxicodependentes

As desilusões sucedem-se, mas as mães dos toxicodependentes não desistem e quando já ninguém acredita são verdadeiras heroínas na luta contra a droga.

Edição de 19.04.2006 | Sociedade
A maior dor de Carolina Caetano foi sentida quando encontrou o filho desmaiado e teve que retirar a seringa e desinfectá-lo. “É uma grande dor ver um filho assim”, confessa uma das heroínas que resiste à força da droga e à destruição que ela tem provocado na família ao longo de 16 anos.Uma professora de 52 anos, que aceita partilhar o seu drama protegida pelo anonimato, conta que todas as semanas vai várias vezes a acampamentos ciganos ou ao Casal Ventoso comprar droga para o filho. “Eu sei que ele precisa da droga e se eles o apanham lá, matam-no. Ele tem dívidas em vários fornecedores”, justifica.Maria de Lurdes Costa, 61 anos, está refém da droga há 20 anos e já perdeu a conta às tentativas de recuperação do filho. Continua a lutar e garante que o fará enquanto tiver forças.São apenas três, de uma lista infinita de mães que são autênticas heroínas na luta contra a droga. Quando os amigos, os irmãos e os pais desistem, elas continuam a sua luta porque “a droga não mata o amor de mãe”.“Já tive alturas de loucura em que pedi a Deus que levasse o meu filho, mas arrependi-me logo a seguir e rezei para que me ajudasse a salvá-lo”, conta a professora.A outra heroína por quem o filho João, 24 anos, se deixou agarrar destruiu uma família e uma vida feita a pulso em conjunto com o marido, um pequeno empresário estabelecido em Porto Alto, Samora Correia. “O meu marido trabalha 16 horas por dia e não conseguimos ter nada. O nosso filho destrói tudo. Até tenho vergonha de levar pessoas a casa porque já não tenho quase nada”, conta com a voz trémula.João começou nos “charros” (haxixe) fumados com os amigos e dois anos depois estava a consumir heroína. Os percursos dos toxicodependentes não variam muito. O filho de Carolina Caetano tinha apenas 13 anos quando entrou no mundo da droga. Passados 16 anos, as histórias de sofrimento, desespero, mas também de perseverança sucedem-se na vida de Carolina. Explica que o rapaz começou a fumar cannabis aos 13 anos, aos 18 tinha ultrapassado a barreira das drogas leves e estava totalmente dependente da cocaína e heroína. A desconfiança durou alguns meses até que a confirmação veio numa noite quando o encontrou desmaiado na casa de banho com a seringa espetada no braço. “Foi aí que vi com os meus próprios olhos”, recorda, com as lágrimas a caírem-lhe pela face.Depois do choque inicial, Carolina Caetano, de 66 anos e residente em Castanheira do Ribatejo, diz que procurou entender a razão de tal ter acontecido. Embora inicialmente não compreendesse com lucidez o que se estava a passar na sua própria casa, até porque na época a informação sobre a toxicodependência não circulava com a fluidez de hoje, Carolina sabia, porque o seu coração lhe dizia, que tinha que ajudar o filho. Iniciou então uma longa jornada feita de recuperações e recaídas.Apesar das alturas de grande desorientação pela dependência, Carolina diz que o filho “nunca tirou nada a ninguém”. De casa, apenas levou um candeeiro da sala para vender em troca de droga. De resto, vendia as coisas que ele próprio comprava para si, como uma aparelhagem de 500 euros que durou apenas dois dias. “Eu sempre lhe disse que lhe dava o dinheiro se ele precisasse e ele pede-me, mesmo quando é para comprar droga”. Sara CardosoNelson Silva Lopes
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