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Mercado valorizado com memórias

Mercado valorizado com memórias

Azulejos com quotidiano de 1930 regressam a Vila Franca de Xira

Quinze mil azulejos retratam o quotidiano de Vila Franca no período 1929-1933 nas paredes do mercado municipal. A recuperação foi um trabalho pioneiro e custou 300 mil euros.

Edição de 26.04.2006 | Sociedade
Depois de meses de uma delicada e difícil recuperação, os azulejos do Mercado Municipal de Vila Franca de Xira foram devolvidos ao local a que pertencem. Entre quem faz a comparação com o que existia e o cenário actual, as opiniões são unânimes: o mercado está muito mais bonito. “Um trabalho lindíssimo para a nossa terra!”, exclamou, cheia de orgulho, Maria Rosa Dias, de 68 anos. Para esta “filha de varina, nascida e criada em Vila Franca”, o mercado municipal não poderia ter ficado melhor do que como está actualmente. Entre quem trabalha diariamente no mercado o entusiasmo era também muito pela renovada fachada. Cecília Camilo, mais conhecida por “Cilinha do Calçada”, de 64 anos, é o espelho desse entusiasmo e do orgulho pelo espaço que conhece quase desde que nasceu. Em cima da sua banca de frutas e vegetais dois álbuns de fotografias, que vêm desde 1946, quando a família Calçada deu entrada no espaço, são o testemunho do amor que “Cilinha do Calçada” tem pelo mercado municipal. Encarnação Guerra, de 68 anos, está igualmente satisfeita pelo resultado final. A peixeira não deixou, no entanto, de lamentar a falta de clientes cada vez mais notória. Apesar de o mercado estar “mais bonito”, Encarnação Guerra não tem grandes esperanças que a fachada renovada traga mais clientela. O problema é que as pessoas perderam o hábito de ir ao mercado. Na cerimónia de inauguração realizada a 7 de Abril, a presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira afirmou-se satisfeita com o resultado final. Maria da Luz Rosinha considerou, ainda, este trabalho como uma “referência para a recuperação de azulejos no nosso país e não só”. Para o presidente do Instituto Politécnico de Tomar (IPT), entidade que levou a cabo o restauro da azulejaria, Pires da Silva, “Vila Franca de Xira está muito mais bonita, muito mais enriquecida, muito mais valiosa” depois da recuperação dos azulejos do mercado. O responsável mostrou ainda disponibilidade para colaborar com a autarquia em futuros trabalhos de recuperação de património no concelho. Mensagem idêntica deixou Fernando Larcher, professor do Departamento de Arte, Conservação e Restauro do IPT. Lançou também o repto à autarquia vilafranquense para que seja publicado um livro com os resultados deste trabalho, devido ao seu pioneirismo. Um longo processoA ideia de recuperar os 15 060 azulejos do mercado surgiu em 2003 na sequência das obras de recuperação do espaço que a Câmara Municipal de Vila Franca decidiu empreender. Depois de desentendimentos entre a autarquia e a Cerâmica de Carcavelos, a primeira entidade responsável pela recuperação da azulejaria, que originaram grandes atrasos, a câmara municipal decidiu então celebrar um protocolo com o IPT para levar avante o trabalho de restauro. Para esta recuperação a autarquia vilafranquense investiu 300 mil euros. Os trabalhos arrancaram em Janeiro do ano passado e implicaram um conjunto de processos morosos, como a retirada de todos os azulejos e a sua lavagem em lixívia para eliminar a alga que estava a provocar uma rápida deterioração e a execução de réplicas para os irreparáveis. A previsão de conclusão era Janeiro deste ano, mas os períodos de precipitação que se fizeram sentir levaram a um atraso na colocação dos painéis. Na inauguração a responsável pelo Museu Municipal de Vila Franca, Graça Nunes, e a coordenadora do trabalho de restauro dos azulejos do IPT, Deolinda Tavares, fizeram uma visita guiada pelos 28 painéis, recuando até ao quotidiano da Vila Franca de há 70 anos atrás. Os azulejos do mercado, que foram encomendados pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira na década de trinta do século passado à Fábrica de Loiças de Sacavém, retratam figuras profundamente ligadas à terra, representando as profissões características da época e as tradições da região. O campino e a varina estão representados, bem como as vindimas, a ceifa, a apanha da azeitona, as lavadeiras no rio e as esperas de touros. Nas quatro entradas do mercado destacam-se, ainda, os painéis dedicados às estações do ano, os motivos que estão na origem de todos os outros painéis. Sara Cardoso
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