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Paragem para a refeição da meia-noite

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Roulottes da zona de Vila Franca de Xira trabalham sem licença

Quando as cidades adormecem desperta o movimento nas roulottes da zona de Vila Franca de Xira. Estacionam à beira das estradas e mesmo sem licença arriscam vender cachorros e bifanas. A polícia, camionistas e até autarcas.

Edição de 26.04.2006 | Sociedade
São duas e meia da manhã. Junto à antiga Estalagem do Gado Bravo, a dois quilómetros da ponte Marechal Carmona, em Vila Franca de Xira, veículos de longo curso estacionam junto à roulotte do “Rodinhas”. Procuram um petisco e alguns minutos de pausa a meio de uma madrugada de trabalho. A bomba de gasolina que fica ali por perto já fechou. Tal como a maioria dos estabelecimentos comerciais. Do outro lado do rio a cidade dorme. É quando tudo pára que a “roulotte fantasma” abre portas.O ponto de venda ambulante que serve bombeiros, camionistas e até polícias só existe no roteiro dos trabalhadores noctívagos. Não está incluído nas listas dos comerciantes de venda ambulante da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. “As roulottes são como as casas de prostituição. Toda a gente sabe que são ilegais, mas o que é certo é que existem”, garante o comerciante Luís David, que não tem conseguido regularizar a situação do seu ponto de venda. Ainda assim arrisca fazer negócio de madrugada. É ali que há três anos garante o sustento da família.As roulottes ambulantes trabalham fora de horas, o que segundo o vereador com o pelouro dos mercados da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Vale Antunes, dificulta a actuação da fiscalização. “Hoje em dia as roulottes já não estão fixas. Estamos a falar de viaturas modernas, que são carros autênticos. Estacionam uma noite numa rotunda e vão andando às voltas. É quase impossível saber onde param”, garante o autarca que assegura que algumas já foram fechadas coercivamente pela autarquia.O autarca só consegue apontar quatro ou cinco roulottes no concelho, mas quem está no meio garante que são pelo menos 18. Não têm casas de banho ou livro de reclamações. Só micro-ondas e fogão de chapa. Os equipamentos não têm descanso. Servem-se hambúrgueres, cachorros e a especialidade da casa – bifana com ovo e bacon. Entre a meia-noite e as cinco da manhã.Também é assim na roulotte de Sérgio dos Anjos, estacionada há um ano frente ao campo de S. João, na Castanheira do Ribatejo. É lá que todas as madrugadas páram polícias, guardas, elementos da brigada de trânsito, bombeiros, elementos do Instituto Nacional de Emergência Médica e até os funcionários da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira que se dedicam à recolha do lixo.“A D. Rosa [presidente da câmara de Vila Franca de Xira, Maria da Luz Rosinha] não quer que a gente esteja aqui. Não fazemos mal a ninguém. Só queremos trabalhar”, queixa-se o comerciante, que não compreende porque é que a autarquia se opõe ao negócio das roulottes. O ponto de venda só abre quando tudo o resto está fechado e não prejudica os comerciantes da zona.As multas sucedem-se. Os proprietários das roulottes ilegais vão resistindo. É lá que garantem o sustento. Manuel Pereira garante que é o proprietário da roulotte mais antiga no concelho de Vila Franca de Xira. Está no negócio há 11 anos. A primeira licença foi passada em 1996 pelo período de um ano, mas nunca mais voltou a conseguir renová-la.Apenas três roulottes têm licença no concelho com cartão de vendedor ambulante passado. A Câmara Municipal de Vila Franca de Xira garante que não tem uma postura negativa sobre a questão das roulottes, mas admite que há uma preocupação com a forma como proliferam no concelho. A autarquia garante que se a junta de freguesia der parecer positivo, a localização cumprir o regulamento e se for apresentado o certificado higio-sanitário as roulottes podem ser legalizadas.Manuel Pereira continua a estacionar na Rotunda da Silveira, em Alverca. Para o ex-camionista, de 48 anos, não é fácil voltar a arranjar emprego. “Já trabalhei na Alemanha e em Inglaterra e lá viam-se muitas roulottes a funcionar nas zonas industriais. Só aqui é que não é assim”, queixa-se Manuel Pereira que não percebe porque é que se autoriza a venda de roulottes-bar nos stands de Vila Franca de Xira. “É como as navalhas de ponta e mola. Podem vender-se, mas não se podem usar”.Ana Santiago
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