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Uma explosão de alegria agitou a manhã cinzenta

Uma explosão de alegria agitou a manhã cinzenta

As últimas horas do antigo regime contadas por Salgueiro Maia, o herói romântico do 25 de Abril

Na madrugada de 25 de Abril, Salgueiro Maia e os outros revoltosos souberam da ordem para avançar ao ouvirem na Rádio Renascença “Grândola Vila Morena”, de José Afonso.

Edição de 26.04.2006 | Sociedade
As tropas do capitão Salgueiro Maia, que comandou a coluna da Escola Prática de Cavalaria de Santarém que cercou o Quartel do Carmo e levou à rendição de Marcelo Caetano na tarde de 25 de Abril de 1974, só tinham ordens para responder a “tiro directo”.O episódio é lembrado por Salgueiro Maia, um dos símbolos do 25 de Abril, numa entrevista ao jornalista Adelino Gomes, publicada na revista “Factos e Fotos” apenas uma semana depois do golpe vitorioso do Movimento das Forças Armadas (MFA) que, há 32 anos, abriu caminho à democracia em Portugal e pôs fim a uma ditadura velha de 48 anos, primeiro com Salazar, depois com Marcelo Caetano.“As ordens aos meus homens eram para responder apenas em tiro directo. Nem mesmo responderiam aos tiros para o ar”, afirmou o capitão, que na manhã cinzenta desse dia 25 de Abril, ainda a comandar as tropas no Terreiro do Paço, explicou a muitos jornalistas qual o objectivo do MFA: derrubar o Governo.Como muitos da sua geração, Salgueiro Maia fez duas comissões em África, na Guiné e em Moçambique. A guerra colonial já durava há 13 longos anos, fizera milhares de mortos e não tinha fim à vista.De uma reivindicação corporativa - contra dois decretos de 1973 para resolver o problema da falta de oficiais para combater na guerra e que prejudicava os militares de carreira - os capitães passam progressivamente a um objectivo político: derrubar o Governo e “pôr fim à ignominiosa guerra colonial contra os povos africanos”, como afirmou o tenente-coronel, Luís Banazol, numa reunião de oficiais, em Novembro de 1973.Salgueiro Maia foi um dos conspiradores do MFA. E é a ele que outro capitão, Otelo Saraiva de Carvalho, o estratega do 25 de Abril, enviou secretamente uma ordem de operações: levar uma coluna militar da Escola Prática de Cavalaria (EPC), em Santarém, até Lisboa para ocupar o Terreiro do Paço e guardar o Banco de Portugal.Às 00h20 da madrugada de 25 de Abril, na Rádio Renascença, Salgueiro Maia e os outros revoltosos souberam da ordem para avançar ao ouvirem “Grândola Vila Morena”, de José Afonso, tornada “hino” da “revolução dos cravos”.E avançaram. Na EPC, Salgueiro Maia tentou, em vão, aliciar o 2º comandante. Ficou preso. Depois, deu ordens “para acordar todo o pessoal” e “cada comandante de esquadrão explicou o que se ia passar”.“A adesão foi incondicional. Ao ponto de ter havido problemas porque todos queriam partir connosco”, relata Salgueiro Maia na entrevista à “Factos e Fotos”, uma das poucas que deu e hoje disponível no “site” do Centro de Documentação 25 de Abril (www.uc.pt/cd25a).Dos 500 militares, só deixaram o quartel 240, que partiram para a viagem até à capital em camiões e em dez carros blindados. Conta o capitão Maia que estavam em péssimo estado e que tinham sido concertados à pressa, dias antes, por oficiais milicianos para ficarem “a andar”.Partiram às 03h00. “A viagem foi feita num ritmo diabólico para viaturas blindadas, pois fizemos uma média de 60 quilómetros por hora!”, conta. Apesar de tudo, só tiveram um furo...Ao raiar do dia, já os homens da EPC estavam no Terreiro do Paço. Chegaram antes das tropas fiéis ao regime, do Regimento de Cavalaria 7, na Ajuda. Salgueiro Maia vive aí o primeiro momento de tensão do golpe. De lenço branco na mão, tenta falar com o oficial que comanda os blindados que vinham tentar salvar o regime.O brigadeiro Reis dá ordem para disparar contra Maia. O alferes recusa. As forças de Cavalaria “passam” então para o lado dos revoltosos e Reis é detido. É manhã cedo e a situação no Terreiro do Paço, segundo Maia, “estava controlada”.O comando do MFA, na Pontinha, dá então novos objectivos à coluna da EPC: a sede da Legião Portuguesa e o Quartel do Carmo, onde, com a protecção da GNR, se refugiaram o presidente do Conselho, Marcelo Caetano, e outros ministros.Já com milhares de pessoas nas ruas - ignorando as ordens do MFA para os lisboetas “ficarem em suas casas” -, as tropas do EPC seguem até ao Carmo.Lusa
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