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O empresário que guardou gado

Curso de medicina interrompido ao terceiro ano
Edição de 03.05.2006 | Entrevista
Veste fato cinzento cortado no alfaiate, usa gravata com elefantes coloridos oferecida pela filha e uma pose de cavalheiro à antiga portuguesa que já não é comum encontrar-se. Emociona-se quando fala das suas origens. Quase perde a respiração. Pede desculpa e recomeça a viagem às memórias de 86 anos de vida.Sebastião Alves é um exemplo de dinamismo, lucidez e sucesso. Os seus dias ainda são preenchidos no escritório da administração da Atral-Cipan, na Vala do Carregado, de onde se ouve o comboio. À frente está estacionado o Citroën C5, já com cinco anos, e conduzido pelo motorista. O empresário que construiu a pulso um autêntico império no sector da indústria farmacêutica não usa veículos topo de gama. Por pura convicção.No seu escritório e sala de reuniões há dezenas de livros, a maioria da editorial Verbo de que é proprietário, há quadros, peças de porcelana, memórias de viagens e uma imagem de Nossa Senhora colocada pela família num ponto estratégico.Os colaboradores tratam-no por Senhor Alves, o título de comendador é dispensado. Para entrarem na sala de trabalho do administrador tocam à campainha e na secretária e na mesa de reuniões há um sistema antigo de botões que permite abrir duas portas.As preocupações com a segurança começam logo na portão de entrada, mas o administrador garante que nunca teve medo de nada.Sebastião Alves fez fortuna, mas não esconde que comeu o pão que o diabo amaçou. Nasceu na aldeia de Amoreira, em Proença-a-Nova. Tinha apenas seis anos quando começou a guardar gado para ajudar a família de seis irmãos. Aos nove anos foi para a escola na vila, a um quilómetro de distância.Frequentou o seminário na Guarda. Era a única possibilidade para estudar. À primeira oportunidade Sebastião Alves saiu e já não voltou. Ficaram-lhe os princípios católicos por que ainda hoje se rege. Aprendeu o ofício de pintor da construção civil e trabalhou por conta própria.Aos 21 anos rumou a Lisboa para cumprir o serviço militar como enfermeiro. Concluiu os sete anos de liceu como trabalhador estudante em apenas dois anos. Inscreveu-se no curso de medicina e chegou ao terceiro ano. Enquanto estudava trabalhava num laboratório de uma farmácia e escrevia contos que vendia a 150 escudos cada a um jornal diário.Foi nas traseiras de uma farmácia de Lisboa que encontrou o “ovo de Colombo” que o fez singrar na vida e transformar-se num dos homens mais poderosos da indústria farmacêutica em Portugal.Nasceu no dia 25 de Abril, mas a data da revolução não lhe traz boas recordações. “Perseguiram-me. Foi um processo mal conduzido”. Tem três filhos e sete netos. É fundador e accionista da Editorial Verbo, é empresário da indústria de celulose e do ramo imobiliário. Foi deputado, nunca se inscreveu em qualquer partido político e garante que nos dias de hoje as políticas de esquerda se confundem com as da direita.

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