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Crescer a aprender ser sapateiro

Crescer a aprender ser sapateiro

Manuel Cristeta, sapateiro há 49 anos em Vila Franca de Xira

O ritmo de trabalho é verdadeiramente alucinante na pequena loja que Manuel Cristeta tem no centro de Vila Franca de Xira. Pessoas de toda a região confiam o seu calçado ao sapateiro que conta já com 49 anos de experiência.

Edição de 03.05.2006 | Identidade Profissional
Colar saltos, coser capas e engraxar sapatos, são algumas das actividades com que Manuel Cristeta, 59 anos, preenche o dia. O sapateiro que cose as botas ao toureiro Vítor Mendes recebe clientes de Lisboa a Santarém e até os colegas de profissão solicitam os seus serviços.Tinha apenas 10 anos quando começou a trabalhar como ajudante de sapateiro. Para não andar na “moina”, os pais puseram-no a trabalhar e o que começou por ser uma obrigação, acabou por se tornar na sua maior paixão. “Com aquela idade, claro que não gostava nada de ter que trabalhar, mas tinha que ser. Depois, tomei-lhe o gosto”, diz.Sendo o mais velho de seis irmãos, Manuel Cristeta dividia o seu tempo entre o trabalho como ajudante, cuidar dos irmãos e a escola, onde ia raras vezes. Aos 14 anos abandonou a escola sem ter feito a quarta classe, que fez já na tropa. Depois de regressar do serviço militar, Manuel Cristeta ainda trabalhou como canalizador, mas logo se apercebeu que aquilo não era o que realmente queria fazer. Deixou os canos e voltou aos sapatos que tanto prazer lhe dão em recuperar, em pô-los “como novos”. No pequeno espaço que há 20 anos tem em Vila Franca, o sapateiro perde-se entre o amontoado de sapatos de senhora, botins de trabalho, cintos, e malas. A grande maioria dos clientes de Manuel Cristeta é do sexo feminino. Aparecem-lhe várias mulheres a cada hora, com o drama dos saltos partidos. Dramas rápida e facilmente resolvidos pelo sapateiro para quem a profissão já não tem segredos. É devido à sua longa experiência que muitas vezes os próprios colegas de profissão lhe pedem auxílio em situações mais complicadas de resolver.De quebras no negócio não se queixa, já que o corrupio de pessoas na loja é enorme. “Ganho sempre para comer, desde que tenha vontade, que às vezes já me falta”, confessa. É que apesar do prazer que lhe dá a profissão, começa a ficar cansado depois de 49 anos de trabalho. Para o auxiliar Manuel Cristeta conta as suas fiéis ajudantes: as máquinas. Com elas, diz, “o trabalho que faço em meio-dia demorava antigamente uma semana”. Comprou-as quando adquiriu a loja em Vila Franca e na altura representaram um grande investimento, mas que valeu a pena.A frese, por onde já passaram milhares de sapatos, é a aliada número um que serve para fazer os acabamentos e dá cera para os engraxar. A máquina de coser, a prensa para fixar a cola e a máquina para alargar o calçado são os outros instrumentos de trabalho indispensáveis para Manuel Cristeta.A única coisa que continua a fazer à mão é coser algumas botas, ao contrário da grande maioria dos seus colegas de profissão. Para cada uma demora 30 minutos, mas diz, orgulhoso da sua experiência, que “se não tiver ninguém a atrapalhar, consigo coser uma bota em 10 minutos”. Para trás ficou o tempo em que fazia sapatos e botas. A arte aprendeu-a também com o seu mestre da juventude, contudo o ritmo de trabalho de hoje não lhe deixa tempo para se dedicar a uma actividade tão morosa. Para além dos clientes comuns, Manuel Cristeta orgulha-se em ser procurado por muitos dos ranchos folclóricos do concelho, seus fregueses habituais. Habituais são também as solicitações das pessoas da sua terra natal, Pegões, no Montijo, quando lá vai. “Venho sempre com um monte de sapatos para consertar, nunca me deixam vir sem nada!”.O segredo do sucesso deste sapateiro está também no brio profissional com que exerce a sua actividade. Exemplo disso é o facto de engraxar todos os pares de sapatos que lhe chegam às mãos, mesmo quando o cliente não pede. “Sempre que os sapatos vêm ao par não saem daqui sem serem engraxados e não levo mais por isso”, diz.Sara Cardoso
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