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Os 150 anos do caminho-de-ferro

Edição de 03.05.2006 | O Mirante dos Leitores
Se usássemos a terminologia de Guerra Junqueiro, quase me via na necessidade de substituir este título por outro que espelhasse em tudo o que se passa no mundo ferroviário: “A vil e apagada tristeza dos nossos comboios”. A data, a efeméride, que deveria ser rejúbilo, para mim, que dediquei toda uma vida aos comboios inscreve-se plenamente nas palavras citadas. No caso nacional, e como não seria de esperar outra coisa, vamos ter umas comemorações “ditas estrondosas” mas que em muito pouco têm a ver com a glória do nosso caminho-de-ferro e dos nossos comboios. Mais uma vez o eterno pecado português de adiar para as calendas uma data que exigia, no mínimo, cinco anos de preparação. Para que se fizessem umas comemorações dignas, no mínimo, de repor em funcionamento a Dom Luís e a 1500 estacionadas em Santarém ou a 801 exumada no mausoléu de Vilar Formoso. Porque não a 850 estacionada no centro de formação do Entroncamento. Nos idos dos anos 98 / 99, foram essas as propostas por mim apresentadas no sentido de se preparar a formação de uma composição que pudesse integrar uma das citadas locomotivas da série 800 e diversas carruagens, que deveriam ser os salões do comboio presidencial, a carruagem de 1ª classe do mesmo comboio, todo esse material, que jaz e apodrece no Entroncamento, uma vez aproveitado, poderia ter ulteriores utilidades no âmbito do Museu Nacional Ferroviário. Para não falar das carruagens Schindler, Linke-hofman ou Goerlitz, no mínimo uma de cada, e imagine-se o comboio que teríamos a circular por ocasião da efeméride. Portugal recolocado nas rotas da preservação do material circulante. Em Sernada do Vouga, a corporização do centro vivo da via estreita com toda a panóplia de material circulante praticamente todo em condições de funcionamento com circulações regulares entre esta e Aveiro, que agora até tem uma estação nova. Mas somos um povo acomodado e sem iniciativa, porque imaginação não nos falta. O que a nível nacional se vai fazer, apenas serve para tapar o Sol com uma peneira. Comezinho. Com muito pouca dignidade. E se comparamos tudo isto com o fim de determinados comboios emblemáticos com máquina e carruagens em algumas linhas do interior, é um autêntico pavor. Atitude nada condigna com a efeméride em apreço. Mas adiante. No que se refere ao Entroncamento, onde se fala também vão haver comemorações, só farão sentido, em meu entender, se em tudo tiverem a ver com o Museu Nacional Ferroviário. Em face das inúmeras incertezas que pairam sobre este projecto, este seria o momento ideal para se fazer uma mega concentração de material circulante indiciado ao MNF, que em tudo ultrapassasse as comemorações da introdução da tracção diesel em Portugal, aqui ocorridas em 1998. Trazer de volta ao Entroncamento muito dos veículos por ai disseminados, bem como aproveitar o evento para mostrar todo o acervo, mesmo o que se encontra nas piores condições de conservação, atribuindo-lhe o necessário estatuto de “reserva museológica”, para que não se caia na tentação, de como já é voz corrente, que o que não presta é para deitar fora. Tomar uma medida desse cariz, significa apagar o trabalho de formiguinha feito ao longo de anos, e negar todos os princípios da museologia. O verdadeiro exercício da museologia e da preservação, é o que consegue inverter as tendências destruidoras, no sentido de preservar uma memória ímpar, ainda a tempo de colocar muito do património ferroviário português no panorama da museologia internacional.António Pinto Pires - Mestre em Museologia

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