uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
30 anos do jornal o Mirante
Antigos combatentes têm mais apoio em Alverca

Antigos combatentes têm mais apoio em Alverca

Veteranos de guerra inauguram nova sede com novas valências

Os combatentes também choram. A emoção tomou conta de alguns veteranos de guerra na inauguração da nova sede em Alverca. Um espaço de apoio a antigos militares e às suas famílias

Edição de 03.05.2006 | Sociedade
A emotividade marcou a inauguração da sede da delegação do concelho de Vila Franca de Xira da Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra (APVG), no passado dia 25 de Abril. O espaço, situado nas antigas instalações da Sociedade Filarmónica Alverquense, em Alverca, tem como principal objectivo atender ex-combatentes e familiares que ainda hoje sofrem as consequências da guerra colonial. Joaquim Ambrósio, de 61 anos, recorda ainda vivamente os mais de dois anos que passou em Angola a combater numa guerra que nunca considerou sua. Os piores tempos, “em que ficava em pânico quando uma porta batia”, ficaram lá atrás, mas esquecer é impossível. Para tentar ultrapassar o stress de guerra, Joaquim Ambrósio fez um tratamento de ajuda psicológica, durante um ano e meio. Isto foi há quase cinco anos e desde então tem sabido lidar melhor com as recordações. No entanto, diz que nunca se sabe quando tudo pode voltar a ficar descontrolado. Por isso a satisfação é indescritível pela abertura de um espaço, na sua terra, que lhe vai permitir e aos ex-combatentes, usufruir de consultas gratuitas de ajuda. Porque, diz citando a frase pendurada sobre a porta da nova casa dos veteranos de guerra: “pior do que assumir que houve uma guerra é fazer de conta que ela nunca existiu”. Na delegação de Vila Franca da APVG estarão disponíveis, em horários ainda a definir, uma psicóloga e um médico especializado no tratamento do stress de guerra para apoiar todos os que precisem de ultrapassar traumas de guerra. “Uma doença que mata silenciosamente”, como referiu o presidente da delegação. António José Oliveira adiantou que a ajuda é também dirigida às famílias que sofreram e ainda sofrem as consequências da guerra colonial. Em dia de inauguração o discurso deste responsável ficou marcado pelo descontentamento pela falta de apoio do Estado português aos ex-combatentes ao longo destes anos. Um descontentamento partilhado pelo presidente da Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra. António José Bastos garantiu que a associação vai “continuar a dar o seu apoio médico e jurídico, mesmo sem o apoio do Estado”. O presidente da APVG manifestou ainda o desejo de voltar ao concelho em breve para a inauguração de um centro de intervenção pós-traumático e de um centro de dia e lar para ex-combatentes. O responsável pela delegação de Vila Franca expressou também a intenção de edificar um monumento em homenagem “àqueles que pagaram o mais alto preço em defesa da pátria, sobretudo os do nosso concelho”. A delegação, que funcionou até agora em instalações provisórias no Sobralinho, vê assim concretizado “um sonho” com a cedência do espaço pela autarquia de Vila Franca. Com 560 associados, a delegação espera vir a conquistar mais pessoas do concelho, onde estima que hajam mais de quatro mil ex-combatentes, e também de outras zonas da região Centro, como Torres Novas, agora que foram criadas as condições. Vereadores partilhamexperiências da guerra Durante a cerimónia de inauguração, a emoção esteve estampada no rosto do vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Alberto Mesquita passou três anos da sua juventude em Moçambique a combater na guerra colonial. “Três anos que se perderam irremediavelmente”, diz o vice-presidente, que durante muitos anos teve pesadelos por causa da experiência vivida. “Sonhava que voltava a ser chamado”, recorda. Com o tempo aprendeu a conviver com as memórias de um período da história de Portugal que considera “uma época sombria, um equívoco”.Também o vereador Francisco Vale Antunes viveu a experiência da guerra colonial. Os mais de dois anos que passou em Angola apenas lhe deixaram uma boa recordação: os mais de 200 elementos que integravam a companhia, que eram analfabetos quando foram, voltaram todos a saber ler. Um projecto em que se empenhou e que muito o orgulha. Da “guerra sem sentido” tem muitas recordações, embora refira que, apesar de tudo, foi “bafejado pela sorte”. É que na sua companhia apenas um elemento morreu e vítima de doença. Sara Cardoso
Antigos combatentes têm mais apoio em Alverca

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...