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Uma visão do Inferno

Uma visão do Inferno

Luís Salvador foi a única testemunha do acidente na Platex, mas quer esquecer aquela manhã

Um homem morreu e outro continua hospitalizado em estado grave devido a uma explosão num silo de uma fábrica de aglomerados de madeira, em Tomar.

Edição de 03.05.2006 | Sociedade
Há quatro dias que Luís Salvador dorme à força de calmantes. A imagem dos dois colegas de turno a aparecerem-lhe à frente envoltos em chamas não lhe sai da cabeça por um instante. “O meu marido não presta declarações, peço-lhe que compreenda”, diz a mulher ao telefone.Luís Alberto Salvador fazia parte da equipa que, na madrugada de quinta-feira procedia à limpeza de um silo na fábrica da Platex, em Tomar. Estava no solo quando se deu a explosão que incendiou os colegas. Foi a sua sorte.Segundos após a explosão, viu os corpos de Luís Filipe Almeida, seu ajudante, e do chefe de turno Fernando Freitas Silva, a arder. Literalmente.Imagens difíceis de descrever. E de apagar da memória. O seu ajudante nunca mais o ajudará. Faleceu na sexta-feira à noite. Tinha queimaduras em 94 por cento do corpo, a coluna fracturada e um traumatismo craniano.Luís Filipe Almeida tinha 35 anos e trabalhava há três na fábrica de Tomar. Era casado mas não deixa descendência. A mulher e os pais, proprietários de um supermercado na cidade, vinham sendo mentalizados pelos responsáveis clínicos para este desfecho. O funeral realizou-se na tarde de terça-feira.À hora do fecho desta edição, o chefe de turno continuava a lutar pela vida no Hospital de São José, em Lisboa. De acordo com o director de urgências da unidade, João Varandas Fernandes, o seu estado é grave e o prognóstico reservado. Tem mais de 90 por cento do corpo queimado. Após a explosão e a visão dantesca dos colegas a arder Luís Alberto Salvador entrou em estado de choque, tendo sido assistido no Hospital de Tomar. Está a tomar calmantes e ansiolíticos e, como disse a esposa, o que menos quer agora é falar sobre o assunto. Falha humana?Só quem trabalha directamente com pó de madeira sabe o quanto ele é perigoso em contacto com algo incandescente. É por isso que, de cada vez que o silo da produção vai para limpeza, a empresa emite uma circular a alertar para os perigos.Tem de haver o máximo de precaução por parte dos trabalhadores para evitar qualquer contacto do pó com uma fonte de calor, como por exemplo um equipamento eléctrico, referia o director industrial, poucas horas após o acidente.É por isso que Costa Cabral não compreende como os seus homens, tão experientes, levaram para a zona de trabalho um projector de luz para procederem à limpeza do silo, antes de começarem os trabalhos de manutenção.Na altura estavam cerca de 20 metros cúbicos de pó de madeira no seu interior. O silo estava quase cheio. Não se sabe bem o que provocou a explosão, seguida de incêndio. O inquérito interno que a empresa está a realizar e a peritagem da companhia de seguros darão mais certezas.Sabe-se que não era costume os trabalhadores encarregados da limpeza levarem para tão perto da estrutura qualquer elemento de calor. Há projectores colocados mais atrás que dão perfeita visibilidade às operações de limpeza, justifica o director industrial.A explosão accionou o foco de incêndio. A chama foi violenta, com o pó a arder a uma temperatura altíssima, de acordo com os responsáveis da empresa. Chamas que apanharam os dois homens que nesse momento estavam numa pequena plataforma no exterior do silo.Luís Alberto Salvador encontrava-se no solo. O trabalhador, ainda de baixa médica, foi a única testemunha do acidente. Uma testemunha que não quer recordar o que viu.Margarida Cabeleira
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