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Sessenta anos ao balcão

Sessenta anos ao balcão

Francisco Luís Salgueiro, um empregado exemplar
Edição de 17.05.2006 | Especial Ascensão
Ao fim de sessenta anos atrás de um balcão, Francisco Luís Salgueiro, empregado da casa A Noiva, confessa que está cansado. “Sempre gostei da minha profissão. Adoro isto, mas já tenho a minha conta. Até ao fim deste ano quero ver se deixo o trabalho”.Longe vão os tempos em que o menino Francisco, depois da escola, ia para o campo cavar vinha. “Aquilo era difícil. Cansava-me muito”. Face à rudeza da vida que o esperava o filho de trabalhadores agrícolas rejeitou a tradição familiar e foi trabalhar para uma loja em Galveias. Tinha quinze anos. Agora vai nos setenta e cinco.Da taberna e mercearia de Galveias foi para outra em Cabeção. Mais tarde para Brotas. Foi aí que o Estado o foi buscar para o fazer cumprir tropa. Dezoito meses de folga no atendimento de clientes. Dezoito meses de serviço em Caçadores 8, Elvas. Depois de tirar a farda surge na Meia Via pela mão de um viajante de Cabeção que o indicou ao proprietário da Casa Fanha. “Acabei a tropa em Agosto e em Setembro já estava a trabalhar. Era uma casa grande. Tinha tecidos, mercearia e taberna. O dono tinha vinhas e adega. Estive lá sete anos”. Pouco tempo depois de estar a trabalhar casou e foi na Meia Via que nasceu o seu primeiro filho. A esposa, Maria Palmira, tinha-a conhecido em Brotas. Francisco Salgueiro está atrás do balcão da loja A Noiva, rodeado de material de todo o tipo. Cretones, chitas, fazendas, caixas de botões, camisas modelo anos setenta, roupões, frascos de água de colónia, lãs. Não há clientes. É raro entrar ali alguém. Autoriza-nos a mexer na rima de chapéus que está em cima de uma prateleira. Alinha numa brincadeira e coloca um para a fotografia.“Quando somos novos temos uma genica terrível”. Sorri. O comerciante José Moedas foi contratá-lo à Meia Via. Ofereceu-lhe mais que os mil escudos (cinco euros) mensais que ganhava na altura. Foi assim que o alentejano que diz ser de Cabeção embora tenha nascido em Aldeia Velha, se fez chamusquense. Quando a Casa Moedas passou a ser Casa Fortes, Francisco Salgueiro continuou por lá. “O senhor Fortes não me deixou sair”.Não o deixou sair nunca mais. A Casa Fortes fechou há sete anos e o empregado passou para o outro estabelecimento do patrão, onde se encontra agora. “Quando esta casa abriu eu vim para aqui mas apenas dois meses. Depois veio uma empregada. A esposa do senhor Fortes veio mais tarde porque na altura em que esta loja foi inaugurada a filha ainda era muito pequenina”.A grande loja da rua Direita de S. Pedro, a rua principal da Chamusca, ganhou um movimento desusado quando deixou de ser Casa Moedas para passar a Casa Fortes. Continuou a ser loja mista, tinha tecidos, calçado e mercearia mas a grande revolução foi o pronto-a-vestir. “O senhor Moedas quando falava comigo dizia-me espantado quando via sair tanta gente do seu antigo estabelecimento carregada de roupa: “Tenho a sensação que a Chamusca andava nua”, conta Francisco Salgueiro com um sorriso.A mercearia também tinha muitos clientes. “Vendíamos muito. Despachávamos um saco de bacalhau em 3 ou 4 dias. Mas o pronto-a-vestir… gabardinas, samarras, fatos, foi a grande loucura!”, explica. “Vinham pessoas dos lugares mais distantes do concelho. Da Murta, por exemplo. E de outros concelhos. Na Chamusca havia 6 ou 7 costureiras e cada uma delas tinha 4 ou 5 aprendizas. Alfaiates deviam ser uns 4 ou 5. Foi uma grande mudança de hábitos.Agora a ideia que se tem de comércio tradicional é de lojas que estão fechadas quando os hiper-mercados e centros comerciais estão abertos. Francisco Salgueiro explica que nem sempre foi assim. “Chegávamos a sair de serviço à meia-noite. Enquanto havia clientes a loja funcionava. Nos dias de grande movimento, perto do Natal, por exemplo, o senhor Fortes acabava por não almoçar nem jantar para poder acompanhar tudo”.Já perto do fim da conversa com O MIRANTE faz mais um elogio ao patrão. “Houve pessoas que lhe ficaram a dever e que já faleceram mas ele é tão bom que em vez de as criticar ou de se lamentar ainda lhes reza pela alma”. E termina com uma confissão. “Eu gosto do sistema de acesso directo aos produtos como nos super-mercados. É meter no carrinho e andar. Já não tinha paciência para estar numa loja à espera de ser atendido”. Os tempos estão mesmo mudados.
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