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Figuras não respeitáveis

Edição de 17.05.2006 | O Mirante dos Leitores
Que perdi o senso! Dirão alguns. Que perdi o respeito pelos políticos! Diria eu.A propósito da notícia publicada na edição de 3 de Maio com o título “Chamou Palhaço ao Presidente”, quero dizer que não enjeito de ninguém o que disse na assembleia municipal de Vila Franca de Xira. No entanto, saliento que não fui «levado para o exterior da sala».A democracia é manipulada por políticos que fazem mau uso do poder. Convém ensinar-lhes o que significa do grego a palavra: “Cracia” significa poder, força e autoridade, e “Demo” significa povo, mas prefiro cidadãos. Então democracia é o poder dos cidadãos, este é primário, sobre qualquer poder dos governantes. As aspirações destes devem ser subjugadas às aspirações daqueles.O que nos distingue do nosso Presidente da Assembleia Municipal, que abreviamos para P., é que nós somos munícipes, mas prefiro cidadãos.As assembleias municipais ocorrem de mês a mês, e supomos de haver direito de na íntegra expor questões aos governantes, de confrontá-los com as suas decisões inconsideradas. É a nossa participação. É-nos dado três minutos. Mas não raras vezes as intervenções dos munícipes excedem este tempo por necessidade, que por bom senso é admitido. A ética do P. muda quando inquirimos a autarquia nos seus embaraços: atalha o discurso dos munícipes porque «já passaram três minutos». Invoca a lei. Mas, no concelho da Amadora, o tempo é de cinco minutos de intervenção. Talvez o país não seja homogeneamente democrático, e haja índices de democracia diferentes nas autarquias. É difícil fazer uma pergunta a três executivos da nossa administração; três perguntas quis fazer pelo que se passa num mês. Assisti à assembleia mais de três horas e meia para poder falar, e depois cingem-me a três minutos para colocar questões difíceis. E só éramos cinco pessoas para falar! Ouvir-nos; que sacrifício eles fazem! Ali estão a cumprir funções, pagos, mas entendem de nos despachar. Vivem dos contribuintes, cidadãos, mas não têm paciência de nos ouvir além de três minutos! A intenção do P. era de cortar o raciocínio, e atalhar, e foi provocatória da situação que seguiu; e pretendia proteger o seu executivo de perguntas desconfortáveis. Destas assembleias também se deve contestar a fórmula adoptada para a intervenção do público: as perguntas são feitas consecutivamente pelos munícipes, mas a presidente de câmara, ou os inquiridos, responde depois a elas no fim, sem termos direito de rebater. Este modo beneficia claramente a posição dos governantes, que serve para não responderem nada. Não respondendo de imediato à pergunta, é mais difícil de o governante ser apanhado na sua contradição e desvio; no momento da resposta, o público já não se lembra do sítio referido, ou até da pergunta feita. Ardilosamente, o executivo camarário responde de modo vago e ambíguo, e é costume iniciar uma resposta com um «vou ser sucinto», para nada dizer, ou um «vou responder a todos em conjunto», para fugir às questões objectivas. Sabem usar da última palavra, e deturpam os factos sem que possamos negar. Portanto, nós somos inibidos de falar muito e eles inibem-se de falar tanto. Não permitem sermos exigentes. Se não exigíssemos, nem à Assembleia da República os deputados compareceriam para assinar o ponto. O perverso de tudo, é que supomos que eles estão obrigados a servir-nos, mas usam-se de nós. Certo é que nos sentimos desrespeitados, portanto, torna-se difícil de haver respeito por eles. Eu respeito as instituições, mas as figuras que as lideram não se mostram respeitáveis. Rui Perdigão

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