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“O ciclismo era quase um sacerdócio”

Marco Chagas foi o ciclista que mais vezes venceu a Volta a Portugal em Bicicleta

Marco Chagas venceu quatro voltas a Portugal em bicicleta. Um feito que mais ninguém alcançou até hoje. Correu na Volta a França, foi companheiro de Joaquim Agostinho. A dieta rigorosa e abstinência sexual a que se submeteu nos melhores anos da juventude levam-no a dizer que ser ciclista naquela altura era quase um sacerdócio.

Edição de 24.05.2006 | Entrevista
Como é que um miúdo de Pontével conseguiu ser um dos melhores ciclistas portugueses de sempre?Tive uma infância normalíssima para uma família humilde que vivia com dificuldades e com as carências habituais na altura. Fiz aqui a escola até à sexta classe, não era um aluno brilhante mas era bom.Deixou de estudar devido a essas dificuldades económicas?Apesar das dificuldades penso que os meus pais podiam ter-me proporcionado mais uns anos de escolaridade. Mas já tinha aquele pensamento da bicicleta e decidi deixar os estudos e ir trabalhar. Mais tarde arrependi-me, mas na altura percebi que havia dificuldades grandes na família e decidi ajudar. A minha mãe trabalhava no campo e a minha irmã, que é mais velha, casou e pouco depois teve um filho que os meus pais também ajudaram a criar. Foi uma vida complicada.Não compensou essa falta de estudos mais tarde?Aquilo que aprendi foi do dia a dia da minha vida e do facto de ter andado muito tempo fora. O francês aprendi no ano que lá estive a correr, e hoje tenho alguma facilidade na língua francesa mas tenho muita dificuldade na língua inglesa. Acho que é uma pena e uma falha enorme de que me arrependerei sempre. Gostava de ter maior capacidade de lidar com as línguas estrangeiras e até no português.Ainda se lembra do seu primeiro emprego?Foi numa casa fotográfica que havia no Cartaxo. Ainda nem tinha idade para trabalhar mas comecei logo a ganhar o meu primeiro ordenado, que era de 300 escudos por mês. Devia ser uma coisa baixinha mas era muito bom para mim.Era um salário dividido pela família?Sim, entregava-o aos meus pais. Era mais uma ajuda para a casa. E isso, não sendo muito significativo, ajudou a que tenha comprado a minha primeira bicicleta de corrida aos 14 anos. Custou dois contos e é claro que os meus pais ajudaram. Era um “chasso” mas foi com ela que me estreei na competição.Mas começou a andar de bicicleta mais cedo…Sim. Quando tinha seis anos o meu pai conseguiu oferecer-me uma bicicleta, que comprou à família do dr. Sérgio Serra, que é o actual director do Centro de Saúde do Cartaxo. Era uma bicicleta que não era nova mas que ele mandou arranjar e foi nela que comecei a pedalar.Foi um grande presente para si?Claro. Foi o Natal mais feliz da minha vida. Quando me levantei de manhã, cheguei à cozinha e vi que tinha lá a bicicleta tive uma alegria que ainda hoje recordo.Foi com o tal “chasso” que comprou aos 14 anos que começou a correr…Exacto. O meu pai tinha muitos problemas de coração e em determinada altura alugou uma casa no Cartaxo para evitar as deslocações, porque às 07h00 tinha de estar sempre na abertura do mercado. Nessa altura fui para o rancho do Cartaxo e quando regressei a Pontével a minha ligação ao rancho continuou. Até acho que foi aí que comecei a dar mais às pernas. E modéstia à parte até tinha algum jeito para dançarino. Ia aos ensaios de bicicleta e fazia duas vezes o percurso entre o Cartaxo e Pontével. O “bichinho” do ciclismo veio também da família…O meu tio Ramiro Martins foi um ciclista de qualidade, de tal forma que foi campeão nacional e atleta olímpico em 1960. Ele deixou de correr quando eu tinha quatro anos, mas lembro-me de ele sair de casa para ir correr e das tabletes de açúcar, que era o que havia na altura.E como foram as suas primeiras corridas a sério?Comecei a correr pela Casa do Povo de Pontével nos campeonatos da FNAT, actual Inatel. Na altura corria quase clandestino porque só tinha 14 anos e não podia correr federado. Inscreveram-me como se tivesse 16 anos e lembro-me de levar grandes “tareias” nas corridas porque corria com gente de todas as idades. Mas muitas vezes batia-me com eles e cheguei a fazer oitavos lugares. Aos 16 anos fui campeão regional de Santarém e vice-campeão nacional.Foi aí que começou a dar nas vistas…Sim. As pessoas começaram a saber que eu tinha jeito e o senhor Vítor Matias, um sportinguista ferrenho que ainda é vivo, levou-me aos treinos de captação do Sporting. Fomos para Monsanto fazer um circuito duro e acho que dei boas indicações, pois eles ficaram com vontade que eu ficasse lá. Por sua vez, o Benfica era treinado pelo senhor Francisco Valada, por quem ainda hoje tenho uma grande consideração, e que me levou lá a treinar. Foi a única vez que vesti a camisa do Benfica e acho que eles também gostaram.Escolheu o Sporting pelo seu amor ao clube?Sim, pelo amor à camisola, que era uma coisa que se sentia fortemente na altura. Teve de haver um entendimento porque o Sporting não tinha a categoria mais baixa, que era populares, e propuseram-me pagar um subsídio de 700 escudos por mês, o que era obra, e eu corria individualmente. Quando tivesse pontos suficientes passaria a júnior.Aceitou o convite?Aceitei e fui fazer as primeiras corridas sozinho. Corria com uma camisola verde clarinha, sem publicidade nem nada. Na primeira corrida fiquei em quarto, fiz vários terceiros e segundos lugares mas nunca conseguia ganhar. O Sporting começou a perceber que eu tinha algum jeito e mandou o treinador dos amadores comigo ao nacional, que se disputou em Aveiro. Finalmente tive alguém que me organizou a corrida. A chegada era a Sangalhos e ele sabia que havia uma subida antes da meta e mandou-me ir atrás deles até essa subida. Eu assim fiz e ganhei. No dia seguinte havia o contra-relógio e também ganhei.Deve ter sido uma época desgastante…Passei o ano todo desgraçado porque apanhava cada “empeno” que não podia. Era um puto e foi uma sobrecarga de quilómetros e de treinos exagerada. Até porque eu trabalhava também.Que características o levaram a ser o ciclista que mais vezes venceu a Volta a Portugal?A minha grande especialidade era o contra-relógio. Não era que fosse muito melhor que os outros, mas sabia que, desde que me preparasse bem, e porque as voltas tinham sempre um grande contra-relógio, arrumava com a concorrência. Com a vantagem do contra-relógio, sem quedas ou quebras físicas, dificilmente eu perderia uma volta.O que é que o fazia ser especial nos contra-relógios?Para já há condições naturais que não se trabalham. E eu tinha um limiar anaeróbico muito elevado. Mas a melhor coisa que um corredor pode ter é uma capacidade de sofrimento acima da média. É dar tudo da partida à chegada, sejam 5 km ou 20 km. É preciso ter algum jeito para gerir aquilo tudo.Como é que se dava com a pressão?Ao contrário da maioria dos meus colegas, para mim o estar de camisola amarela e liderar uma corrida só me ajudava porque chegava à noite e dormia tranquilo porque estava à frente. Dentro da corrida preocupava-me em estar sempre num bom lugar e gerir as forças da melhor forma. Poucas vezes andei em fugas e me meti em aventuras que sabia que não iam dar em nada. Só atacava nos momentos certos.

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