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Sempre a “puxar” pela vida

Breve perfil de um campeão que nunca renegou as raízes
Edição de 24.05.2006 | Entrevista
Faz 50 anos em Novembro mas tem um físico de fazer inveja a muito jovem. O ar jovial com que encara o dia a dia ajuda. A roupa também. Chega ao ponto de encontro, o café Aleixo, em Pontével, vestindo um pólo justo preto e calças de ganga. Calça ténis cinzentos. A tez morena sugere que não é “pássaro de gaiola”. Ou não desse ainda as suas pedaladas pelas estradas da região, já não numa bicicleta de corrida mas numa BTT.Marco Chagas irradia simpatia. As pessoas que vão entrando no café cumprimentam-no carinhosamente. Ele retribui no mesmo registo. Quando fala gesticula muito com as mãos. O vocabulário está longe de ser pobre. Ele foi um dos que ajudou a romper com o conceito de que os ciclistas eram todos homens rudes incompatibilizados com o bom português.A prática como comentador televisivo ajuda à fluidez do discurso. As leituras que o acompanham desde a infância dão-lhe lastro. Recorda-se perfeitamente das velhas Citroen cinzentas da Fundação Gulbenkian que funcionavam como bibliotecas itinerantes. Dos livros que leu de Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Júlio Dinis e outros clássicos da nossa literatura.“A literatura hoje é muito menos trabalhada. E isso pode ter alguma responsabilidade naquilo que é hoje a nossa língua, que está menos cuidada”, observa.Lamenta não ter estudado mais. A vida modesta da família não o permitiu. Começou a trabalhar novo. E depois vieram as bicicletas. Foi sempre a pedalar, pela montanha da vida acima. E chegou ao topo naquilo que fazia. Se pudesse, gostava de ter seguido línguas ou história. “Sou um apaixonado por tudo o que tem a ver com o passado”, diz.Não admira que eleja os The Beatles como uma das referências musicais – “ficarão sempre na história” -, a par com os também britânicos Queen. Portugueses como Paulo Carvalho, Vitorino e José Cid - “noutro estilo” – também o marcaram. Dos mais recentes aponta Delfins, Madredeus, GNR e Mariza. No jogo das perguntas e respostas corta a direito. Não se mete por vias sinuosas nem por discursos redondos. É expansivo. Revela pormenores íntimos quando recua aos melhores anos da juventude, em que as relações sexuais lhe estavam vedadas por conselho técnico durante meses a fio. Para concentrar energias na alta competição. Houve raparigas que chegaram a duvidar da sua virilidade, conta com humor.Era uma vida de sacerdote, assume. Tal como reconhece que no apogeu da sua carreira mal havia tempo para estar com a família. Nos últimos anos separou-se. Perdeu a mãe e o pai. Essas experiências abalaram-no. Nota-se quando nos dirigimos a casa dos pais, onde guarda os troféus que remetem para a história de um grande atleta. O que mais voltas a Portugal ganhou até hoje. Foi aí que vestiu a camisola amarela para a fotografia. Com a disponibilidade de um campeão a quem a glória não roubou a humildade.É em Pontével que tem as raízes. Anda a recuperar uma casa para regressar do afastamento ocasional. A pequena vila ribatejana sempre foi o seu porto de abrigo. Gosta de viajar, conheceu muitos países, surpreendeu-se com a África do Sul do apartheid e emocionou-se quando lá regressou e viu esse sistema racista abolido. Adora também o Brasil – “é pena ser tão longe”. Mais próximo é o Estádio de Alvalade, onde vai com regularidade ao futebol. Sportinguista ferrenho, deixou de ser sócio desiludido com o novo modelo de gestão do clube. “Quando se criou a SAD comprei 100 acções, mas depois fiquei algo desapontado”.Velha glória do clube, Marco Chagas tem um vasto espólio ligado à carreira que neste momento está cedido a uma professora da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa para um trabalho. São fotografias, recortes, pedaços de memória que um dia poderão ser dados a conhecer em forma de livro. Para mais tarde recordar.

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