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Delfins reencontram-se num sonoridade intimista

Delfins reencontram-se num sonoridade intimista

Miguel Ângelo explica tournée “De Corpo e Alma”
Edição de 31.05.2006 | Cultura e Lazer
Miguel Ângelo abre-nos a porta do quartel-general dos Delfins. Uma cave num Centro Comercial de Cascais. Um espaço isolado acusticamente onde os músicos se encontram consigo próprios e com os outros com quem interagem. Um ponto de partida para a actual tournée intimista “De Corpo e Alma”, feita em salas pequenas, com o público olhos nos olhos e um som orgânico a tecer reencontros. O que é que os espectadores encontram nesta tournée dos Delfins?É o segundo ano de uma tournée que criámos o ano passado “De Corpo e Alma” sob a égide do acústico. Voltar a pegar nas nossas canções e dar-lhe um tratamento acústico. No fundo fazer o tradicional unplugged que todas as grandes bandas fazem e que nós passados 20 anos ainda não tínhamos feito. Escolhemos salas onde se pode criar uma certa intimidade. Os teatros, os cine-teatros, alguns auditórios… Sítios que não tenham mais de 600/ 800 pessoas senão perde-se o lado mais intimista que queremos preservar nesta tournée. As pessoas nunca nos viram desta maneira. Podem pedir uma música ou até mandar uma boca. Essa intimidade que pretendem criar tem funcionado? Tem funcionado muito bem. Esta tournée é uma espécie de reencontro com dos Delfins com o seu público. Com os amigos. Foi por causa deles que fizemos a carreira que fizemos e que estamos aqui ainda hoje. A escolha dos espaços não acontece só por questões técnicas…É também por questões de som. Nestes espaços consegue criar-se um som mais interessante, mais envolvente e mais cuidado. A acústica destes espaços é boa. Já sabemos com o que contamos e conseguimos proporcionar às pessoas um nível de maior qualidade sonora. É uma das ideias, mas outra é também as conversas com as pessoas. Passear. Viajar no tempo. Ir buscar canções com 15 anos e depois passar uma do ano passado. Misturar. Não obedecendo muito à cronologia dos factos. No fundo é conversar. E às vezes contam-se histórias às pessoas que pedem canções. Há um ambiente muito mais informal que num concerto de estrada.O espectáculo recupera canções do passado, mas também dá a conhecer os novos temas do grupo. É uma das novidades do segundo ano da tournée?Não quisemos repetir tudo o que tinha acontecido no ano passado. E começamos a introduzir temas novos que já farão parte do nosso novo disco. As pessoas irão assistir em antestreia às canções novas que ainda estamos a gravar. Tem sido uma ferramenta boa de trabalho para testar as canções com o público antes de as gravar ou antes de as mandar para a rádio. É uma consulta popular directamente às bases, utilizando uma linguagem partidária… (risos). Sentem que as novas canções estão a ser bem recebidas? Muito bem. E ultrapassamos um pouco o acústico – já tocamos com alguns instrumentos eléctricos nas canções novas – e criamos ali uma bolsa antes do intervalo em que tocamos quatro novos temas de rajada. Para as pessoas irem comentar para o intervalo. A reacção tem sido boa. Deu-nos algum ânimo saber que passados 20 anos de carreira não estamos confinados ao nosso baú de canções.Não vos aborrece ter que recuperar os temas antigos durante os espectáculos?Neste caso não porque nós acabamos por reinventar os arranjos, não estamos a tocar tal como foram gravados e são conhecidos. Eles foram de alguma forma transformados. Há temas, por exemplo, que são tocados só a piano e voz. Há temas que são tocados com duas guitarras e duas vozes. São soluções dinâmicas para tornar o espectáculo mais interessante e aproveitar o acústico e a intimidade. Como é que surgiu a ideia de uma tournée acústica?Acho que sobretudo foi uma forma de nos aproximarmos como banda. Levou-nos outra vez à procura de um som mais orgânico como a que é produzido pelos instrumentos de madeira. Deixámos aquela fase mais electrónica que tínhamos experimentado nos últimos anos, especialmente em “Babilónia” com os computadores e equipamento digital e voltámos à coisa mais básica que há: uma bateria, dois baixos e guitarras. O facto de teremos voltado os cinco a tocar fez com que voltássemos à ideia base de banda e com vontade de compor coisas novas. Temos cinco temas prontos para um disco de originais que já tarda.O grupo que agora se reencontrou tem tido alguns altos e baixos ao longo dos anos…Como é normal numa banda com tantos anos. Temos feito coisas paralelas na música e não só. Houve a ideia de voltar a tempo inteiro como no início. E fazer disto a via principal de trabalho, reflexão e de composição. Foi mesmo o acústico que nos aproximou desta maneira.O projecto não vos completa em termos de criatividade?Os Delfins ou qualquer outro grupo em Portugal têm tempo para desenvolver outras actividades. Se fossemos um grupo inglês ou americano se calhar não seria assim. Andávamos em tourneés mundiais de dois anos. Depois chegava a altura de gravar um disco novo e ia-se para estúdio outra vez. Como Portugal é um país pequeno onde se toca mais no Verão temos tempo para outras coisas. No início os Delfins já faziam música para teatro e cinema. Foi a nossa maneira de reagir. Para tentar que os Delfins não fossem uma coisa completamente hermética. Esta onda de revivalismo no universo da música portuguesa com celebrações de 20 e 25 anos de carreiras e lançamento de colectâneas e edições especiais não é má para os grupos e músicos mais novos? Nos últimos anos houve da parte dos média uma espécie de moda de recuperar muita coisa antiga. Conseguimos ouvir grupos a tocar mais temas antigos do que novos. Isso tira visibilidade ao que está a acontecer. Há muita gente nova a fazer coisas muito interessantes mas não chegaram ainda aos meios de comunicação principais. Andam numa espécie de sub mundo, underground, dos clubes de rock, rádios universitárias, palcos secundários de festivais… mas é uma questão de tempo. Os grupos com 20 e 25 anos ganharam uma visibilidade histórica e se ainda existem é porque há quem ainda os ouve. Não se trata de tirar o lugar aos novos. Os novos vão conquistar o seu lugar como nós conquistámos. Demora algum tempo. Vive-se a lógica do sucesso. Mas acho que deve construir-se primeiro a carreira e aparecer depois. O revivalismo tem a ver com necessidades financeiras dos grupos e das editoras? Ainda vão para os espectáculos ou para estúdio com o mesmo prazer?Um artista tem sempre prazer em subir a um palco. Mesmo os Rolling Stones, por exemplo, terão algum prazer em tocar, mas é evidente que também há questões financeiras em pano de fundo. Isto é uma indústria. Claro que no caso português é diferente. A amplitude é menor. Nós continuamos a fazer as coisas por carolice. Andamos aqui por prazer. No meu caso se a motivação fosse o dinheiro tinha ficado na televisão ou aberto um restaurante.Se o convidassem para editar um jornal por um dia, como aconteceu com o Bono dos U2, que assuntos escolheria para a primeira página?O Bono anda a tentar salvar o mundo há alguns anos. Está envolvido em questões que transcendem em muito a música. E ainda bem. No meu caso eu optaria por falar de música. Faria um especial sobre o grande circuito de clubes onde os miúdos andam a tocar e que é invisível ainda aos olhos dos portugueses. Os jornais e as televisões agarram-se mais ao que já vem com êxito lá de fora. Preferem jogar pelo seguro. Não passam na rádio e ninguém os conhece, mas há um culto dessas novas bandas que as torna muito importantes. Faria uma capa grande com 36 fotografias a cores das bandas que as pessoas nunca ouviram falar.Ana Santiago
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