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Concentração total

Edição de 31.05.2006 | Entrevista
Já perto do final da entrevista quando interrogado sobre o medo e a morte, Victor Mendes inclina-se para a frente e encurta a distância entre si e o jornalista. É impossível fugir àquele olhar ali tão próximo. Um metro que parece ter apenas um palmo. Um momento quase hipnótico. As palavras deixam de ter qualquer importância. O gravador continua a registá-las mas o entrevistador deixa de as ouvir para se concentrar na expressão do toureiro. Um touro na arena, perante um olhar assim, é um animal desarmado. Vencido.Na sala onde decorre a entrevista não há nada que nos recorde que estamos na casa de um dos maiores matadores de toiros de todos os tempos. A excepção é um óleo assinado por Xavier Noguera mostrando picadores a cavalo e toureiros numa zona de claustros. A explicação virá mais tarde, os filhos. “Quando eram pequenos eu passava muito tempo fora e quando regressava era para recuperar de colhidas. Eles sempre associaram o toiro a algo mau, que fazia mal ao pai. As minhas coisas estão numa outra sala”, explica.Mais tarde havemos de verificar que não se trata de uma sala mas de um autêntico museu de dois pisos. Cabeças de toiros embalsamadas, pinturas, fotografias, esculturas, livros, revistas, trajes de luces, mil e um objectos que recordam uma carreira repleta de sucessos. Um espólio de valor incalculável que encantaria qualquer aficionado. Victor Mendes recebe-nos informalmente na sua vivenda às portas de Vila Franca de Xira. Lá do alto têm-se uma vista esplêndida sobre o Tejo. O toureiro que estamos habituado a ver em trajes cintilantes tem a barba por fazer, enverga calções pelo meio da perna, uma t-shirt cinzenta. Na cabeça traz um boné de baseball e calça uns ténis brancos. “Pareço um cigano”, diz a sorrir. Não é verdade. Quem presta atenção aos pormenores descobre o toureiro nos mais pequenos gestos. A pose erecta do corpo. A maneira de andar, a colocação das mãos. É véspera de uma importante actuação no Campo Pequeno e anda numa roda-viva. Pede-nos quinze minutos para acabar de discutir pormenores da construção de um redondel com o engenheiro encarregue da obra. Tem uma esfoladela no cotovelo direito. Uma insignificante picada de insecto quando se pensa no mapa de cicatrizes que os toiros lhe desenharam no corpo. Numa cristaleira da sala há cerâmica sul-americana. Numa outra um veleiro. Na parede por cima da lareira estão penduradas duas cabeças de veado embalsamadas. Uma foto junto a um animal abatido denuncia o seu gosto pela caça grossa.A entrevista decorre à volta de uma mesa baixa, de sala de estar. Há duas caixas de charutos em madeira. Em cima delas um livro “saveurs de cigare”. Fotos de família olham-nos de cima de um móvel. Um binóculo antigo montado num enorme tripé de madeira está apontado à paisagem. O telefone toca de vez em quando mas ele ignora-o. Chegam-nos rumores de pessoas na entrada da casa. Interrompe a entrevista duas vezes para falar com a esposa. Sempre cortês, sempre atencioso. Desculpa-se. Nunca mostra enfado ou impaciência. De cada vez que regressa à conversa concentra-se totalmente nela. Abstrai-se de tudo o resto.

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