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“Em Portugal há falta de profissionalismo”

“Em Portugal há falta de profissionalismo”

Edição de 31.05.2006 | Entrevista
Quando foi para Espanha, numa época conturbada em Portugal, sonhou ser figura?Eu parti com a intenção de ser matador de toiros numa época em que o toureiro a pé tinha quebrado o elo de ligação com a morte de José Falcão. Houve um impasse e Portugal precisava de uma figura.Nesta altura apareceram vários novilheiros que não conseguiram triunfar como António de Portugal e Parreirita Cigano e Fernando Pessoa que foram óptimos profissionais e com os quais aprendi muita coisa. Felizmente consegui.Qual foi o segredo do sucesso?Em Espanha quem tem unhas é que toca guitarra Lá é a sério. Os toiros são em pontas, os aficionadados exigem toureiros com tripas, motivação e entrega total. É preciso abdicar da família, dos amigos, do bem-estar. Ali trabalha-se com seriedade É muito difícil para todos, não é só para os portugueses.Quais são as qualidades mais importantes para ser figura?Garra, carisma, dedicação, inteligência e... colhões. Só com um pouco de tudo isto se pode vencer. Quantos toureiros marcaram épocas em Espanha que é a pátria do toureio?Sente que foi mais acarinhado lá do que no seu país de origem?Sou patriota acima de tudo mas, com sinceridade, ser português acabou por ser um constrangimento. Os espanhóis têm outra mentalidade e outra cultura taurina. Em Portugal a festa vive duma mentira...Porquê?Em Portugal não se pode exercer a profissão de matador. O toiro não é morto na praça. Aqui gira tudo à volta da corrida à portuguesa com os cavaleiros e os forcados. Eu gosto de ver mas tive de emigrar para poder chegar a ser respeitado, considerado e admirado como profissional do toureiro.O problema é os toiros não serem mortos na praça? Em Portugal o animal não é lidado íntegro, os toiros são afeitados e não há respeito pelo director de corrida. E há outros problemas. Um bandarilheiro aqui não consegue sobreviver da festa, tem de ter uma actividade paralela para sustentar a sua família. Em Espanha ou na França os toureiros vivem da profissão que é considerada de desgaste rápido. Podem pedir a reforma aos 55 anos. O Estado apoia a festa como património nacional, aqui não. Há muita coisa para mudar.O que pode mudar?É preciso apostar no toiro como um produto a vender. Há público para isso e o aficionado aposta na qualidade. Não se pode é vender gato por lebre. Durante muitos anos valeu tudo para ganhar dinheiro. Eu vi directores de corrida a dirigir com uma bebedeira. Vi forcados a ameaçarem bater no director porque não os tinha deixado pegar o toiro depois de várias tentativas. Há uma enorme anarquia e uma enorme falta de profissionalismo, inclusive dos toureiros. Há subalternos que se apresentam de forma pouco digna.“Falta ambiente taurino em Vila Franca de Xira”Acredita que a renovação da praça do Campo Pequeno pode contribuir para uma maior exigência e para a captação de público? É um bom projecto e penso que vai resultar. Espero que este conceito multi-usos que permite aliar a festa dos toiros com outros eventos seja seguido noutros locais a exemplo do que já foi feito em Espanha.Tenta-o a ideia de implementar um projecto destes em Vila Franca de Xira?Não. Nem pensar. Vila Franca é um meio muito complicado. Tem um ambiente agressivo e hostil. A praça de toiros Palha Blanco está nas mãos da Misericórdia que tem sabido cuidar bem da sua conservação, mas uma praça de toiros não é apenas um imóvel. Tem de se criar um ambiente taurino e mantê-lo. A praça não enche porque a aficion local está queimada. Fala-se muito nas tertúlias e nos cafés, mas quando chega o momento de ir à praça e defender o espectáculo taurino da sua terra, o aficionado não vai.A Câmara Municipal pode contribuir de algum modo para manter a tradição taurina? Sou conhecedor do apoio que a câmara e a senhora presidente Maria da Luz Rosinha têm dado a este sector. Mas estas questões não dependem da câmara municipal.A solução pode passar por aproveitar a praça e transformá-la no tal tauródromo?Eu penso que sim, mas é preciso que todos estejam de acordo e não vejo abertura do lado da Misericórdia. Erradamente, quanto a mim, porque pode estar ali uma boa fonte de receita para apoiar as obras sociais.
“Em Portugal há falta de profissionalismo”

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