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Matar o morto

Edição de 31.05.2006 | Opinião
Nas Faculdades de Direito, estuda-se aturadamente uma matéria interessante, mas que eu pensava consistir em assunto meramente académico.O bandido planeia cometer um crime.No entanto, quando o coloca em prática, já existe uma circunstância qualquer que impederia sempre a realização do crime.Por exemplo, o marido projecta matar a mulher, à noitinha. A ideia é deixá-la ir para o quarto do casal, deitar-se.Depois, quando ela estiver a dormir, o marido dirige-se aos aposentos e dispara sobre a senhora, colocando termo à sua vida.Sucede que a esposa, logo após se deitar, é acometida de uma tromboembolia, sofrendo morte instantânea.O marido está longe de saber que já é viúvo. Algum tempo depois, faz uso da sua arma de fogo e lança um projéctil sobre a sua mulher. Evidentemente, ele não assassinou. Ela já estava morta.A questão que se coloca é a de saber se esta pessoa deve ou não ser condenada pelo juiz.Realmente, ele tentou praticar um crime.Geralmente, todo aquele que tenta cometer um crime frustrado vai preso, desde que a infracção seja realmente grave.Contudo, nestes casos, está-se perante uma tentativa impossível.E realmente tentar matar um morto é daquelas coisas que não justificam mandar uma pessoa para a prisão.Ora dizia eu que pensava que estas matérias constituíam assuntos um pouco teóricos, distantes da realidade prática.Não é bem assim.Aqui há uns tempos, um homem decidiu ir assaltar o escritório do padre: o cartório paroquial.Havia lá muito dinheiro e objectos em ouro.A estratégia era a de ir lá pela calada da noite e partir o vidro da janela, que era daquelas de guilhotina. Para abrir, corria-se a janela para cima. Ora partindo a vidraça, era fácil accionar o fecho, destrancar a janela e corrê-la.Lá partir o vidro, ele partiu. Facilmente, acedeu ao fecho e destrancou a janela. Sem dificuldade, subiu-a e prendeu-a, como é próprio naqueles mecanismos de guilhotina.O problema foi quando ele verificou que, da parte de dentro, havia umas grades grossíssimas.Este foi só o primeiro azar do assaltante.Devido à barulheira provocada com a quebra do vidro, ele chamou a atenção sobre si próprio e foi capturado.Neste caso real, haveria ou não tentativa impossível?Em boa verdade, a resposta é negativa. Com paciência e o auxílio de uma serra, era possível eliminar as grades.Quanto a matar mortos, é curioso o que se passou com o ditador italiano Benito Mussolini.Com a queda do fascismo, muitos queriam matá-lo. Mas só os primeiros o conseguiram fazer, como é óbvio.Esse papel coube a um major, incumbido da tarefa por Winston Churchill.Há uns tempos que o primeiro-ministro britânico andava a escrever cartas a Mussolini, solicitando a devolução de correspondência enviada anteriormente.Nessas cartas pretéritas, Churchill apresentava propostas inadmissíveis. Aceitava que o Duce italiano ficasse com determinadas partes de França, desde que colaborasse contra o avanço soviético.À medida que se tornava claro que a Itália iria perder a guerra em conjunto com a Alemanha, o líder inglês ficou preocupado com a possível revelação daquela troca de correspondência.Pedia que Mussolini lhe devolvesse os documentos, oferecendo em troca protecção pessoal ao seu homólogo italiano, após o termo do conflito armado.Como não houve resposta atempada, Churchill encarregou um militar anglo-italiano de capturar o Duce e fuzilá-lo, garantindo que aquelas cartas seriam recuperadas.Realmente, quando foi apanhado, disfarçado de resistente antifascista, Mussolini tinha em seu poder uma mala com essa documentação.Foi executado, conjuntamente com a sua amante, Clareta Petacci. Quem disparou foi Bruno Lonati, acompanhado do referido major.A operação foi rodeada do maior secretismo.Tal permitiu aos comunistas, nesse mesmo dia, encenar o fuzilamento de Mussolini e da sua amante, recorrendo a sósias.A farsa foi levada a cabo por Valerio Audisio, o “Coronel Valerio”. Durante anos, acreditou-se que, realmente, ele tinha sido o executor do casal.Assim, os comunistas ficaram com a fama de terem derrubado o regime.Entretanto, já com os cadáveres em Milão, ainda se realizou uma nova execução. A autópsia veio a revelar mais orifícios de bala do que aqueles que foram provocados pelas munições no momento da morte.* Juiz(hjfraguas@hotmail.com)

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