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Morte por explicar

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Família de Maria do Céu Martins vai avançar para tribunal

Uma jovem de 32 anos faleceu oito dias após ter dado à luz no Hospital de Abrantes. A administração já abriu um inquérito interno para saber o que correu mal e apurar responsabilidades.

Edição de 31.05.2006 | Sociedade
Porquê? Esta é a pergunta que Isabel Gaivoto faz vezes sem conta durante a conversa com O MIRANTE. Porque é que a sua filha morreu, quando deu entrada no hospital só para dar à luz. Porque é que esperou horas à porta do bloco operatório, porque só foi transferida para Lisboa 15 horas após um acto cirúrgico que correu mal. Perguntas feitas no ar, à espera de respostas que ainda não tem.“Eu quero saber porquê”, diz a moradora de Alcanena, olhando para a recém nascida Lara, que nunca irá conhecer a mãe. Maria do Céu Gaivoto Moita Martins faleceu a 11 de Maio no Hospital de São José, oito dias depois de ter sido transferida do hospital de Abrantes. Foi evacuada de helicóptero, 15 horas após ter dado à luz. O parto era o único acto programado numa intervenção que correu mal. Quando no dia 2 de Maio saiu do bloco operatório, não tinha parte do útero, tendo-lhe também sido extraída a trompa e o ovário esquerdo.“Porquê?” volta a perguntar Isabel Gaivoto. Que vai pedir um relatório do sucedido ao Hospital de Abrantes. “Quero que eles me digam o que fizeram à minha filha, porque o fizeram. Quero justificações clínicas para a sua morte, antes de avançar com uma queixa-crime”.Na sua posse já tem o relatório elaborado pelos responsáveis do Hospital de São José. Não o mostra, nem desvenda nada do que o médico ali escreveu. É um “trunfo” que guarda para usar em tribunal. Porque a morte da sua filha não pode ter sido em vão.Maria do Céu Martins realizou o sonho da sua vida. Aos 32 anos ia finalmente ter uma menina, após ter dado à luz dois rapazes. A gravidez, de risco, estava a ser seguida em Torres Novas e o parto seria de cesariana.Marcada inicialmente para 27 de Abril, a cesariana só veio a acontecer oito dias depois. Na noite de 1 para 2 de Maio Maria do Céu começou a ter contracções e dirigiu-se ao hospital de Torres Novas, tendo sido observada pelo médico que a acompanhava. E que a mandou internar na unidade de Abrantes.Às 15h00 do segundo dia de Maio o genro de Isabel Gaivoto telefona à sogra a anunciar que vão descer para o bloco operatório. Uma hora depois Maria do Céu continuava à porta da sala de operações. À espera de vez.Quatro horas depois Maria do Céu liga à mãe. Diz que está sentada numa cadeira, que já não aguenta estar na maca. Continua à espera de entrar para o bloco operatório. E pergunta à mãe se os filhos, de cinco e dez anos, já tinham jantado. “Foi a última vez que ouvi a voz da minha filha”, diz Isabel Gaivoto, que limpa uma lágrima teimosa. “A mãe não vai chorar filha, tu dás-me força para eu levar a vida para a frente”, diz, olhando para cima.A pequena Lara nasceu às 22h20 de dia 2. O parto foi a única coisa que correu bem. Às 13h00 do dia seguinte Isabel Gaivoto recebe uma chamada do Hospital de Abrantes. Era a obstetra Helena Laje, a informá-la de que a sua filha ia ser transferida de helicóptero para Lisboa.Partiu para Abrantes com o coração nas mãos. Foi encaminhada para uma sala do piso 5 onde lhe foi dito que, apesar de terem feito tudo o que podiam, não tinham conseguido estancar a hemorragia de Maria do Céu Martins.O desespero de mãe leva-a até Lisboa, ainda nesse dia. Quando chegou ao Hospital de São José a sua filha ainda estava no bloco de operações. “O doutor Guedes, médico cirurgião, disse-me que o caso da minha filha era muito grave, que ela tinha lá chegado muito mal”.Durante oito dias Maria do Céu Martins não saiu da sala de cuidados intensivos do piso 2 do hospital de São José, onde viria a falecer no dia 11 de Maio. A mãe e o marido visitaram-na diariamente mas Maria do Céu parecia não dar por eles.Isabel Gaivoto sabe que nunca terá a filha de volta. Mas quer que os responsáveis hospitalares lhe dêem justificações. Para que a morte da sua filha possa servir para alertar consciências. “Não quero que mais nenhuma mãe fique sem uma filha desta maneira”, diz revoltada.Margarida Cabeleira
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