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Pioneira no combate ao vício

Pioneira no combate ao vício

Graça Evaristo iniciou há quatro anos a única consulta de desabituação tabágica que existe na região

É uma luta solitária mas que Graça Evaristo assumiu de corpo e alma. A médica que trata a nicotina por tu tenta convencer os pacientes a deixar de fumar. Muitas vezes não consegue.

Edição de 31.05.2006 | Sociedade
Há tempos uma paciente da pneumologista Graça Evaristo pediu-lhe por tudo que a fizesse deixar de fumar porque era pobre e não tinha meios para suportar o vício. A única médica que dá consultas de desabituação anti-tabágica na região respondeu-lhe que não fazia milagres. A bola está sempre no campo do fumador. Quando a cabeça não quer, não adianta. E a saúde e a bolsa é que pagam.Se deixar de fumar fosse fácil a taxa de sucesso das consultas de Graça Evaristo no Hospital Distrital de Santarém não andaria pelos 26 por cento. Muitos pacientes vão à primeira consulta, indicados por outros médicos do hospital, e não voltam mais. Falta-lhes a vontade.“Mando-os fazer uma série de exames e passo-lhes a bola para marcarem posterior consulta, já com os exames feitos, mas muitos não aparecem”. O que a médica até compreende. “Se não estão preparados, pelo menos não tiram a vaga a outro nem me roubam tempo”.É que deixar a nicotina não é pêra doce. Por isso só aceita utentes sem problemas a nível de saúde, familiar ou profissional. Ou seja, em situações de stress intenso onde o cigarro é muitas vezes uma espécie de salva-vidas. “Quando não se está psicologicamente estável, a primeira coisa que se faz é puxar do cigarro. A nicotina uma vez entrando em circulação agarra o fumador. Aloja-se a nível cerebral e desencadeia reacções quando os níveis baixam”.A falta de nicotina pode levar a insónias, depressões, cefaleias. A médica tem consciência disso e tenta motivar os pacientes com pequenos truques. Como o de lhes dar um mealheiro onde devem depositar diariamente, até final do tratamento – que dura um ano –, a soma equivalente à que gastariam em cigarros. Só o podem abrir quando tiverem alta. É a sua faceta de psicóloga improvisada a funcionar. Aconselha as pessoas a pensarem num artigo, numa viagem, em algo que possam comprar com o dinheiro que não gastaram no vício. “É um estímulo e representa o esforço deles em deixar de fumar. A pessoa tem de escolher entre a saúde e o prazer”.Mesmo assim há sempre recaídas. Como o paciente que recomeçou a fumar depois de um casamento onde consumiu uma cigarrilha. “Depois de deixar de fumar basta agarrar o primeiro cigarro”. A nicotina entra novamente em circulação e vai buscar a memória alojada nos confins do cérebro. Outros engordam muito e desistem. Embora haja também quem resista. “Tive um paciente que engordou 19 quilos, mas deixou o tabaco. Tive foi de o mandar para uma consulta de nutrição”.A terapia consiste essencialmente na aplicação de um substituto da nicotina, eventualmente ansiolíticos para combater a ansiedade e alguma psicoterapia. A alta só surge um ano depois. As consultas tornam-se mais espaçadas no tempo com o andar do tratamento. No final, quem obtiver alta leva um diploma. Porque o “curso” tem só um ano mas não é para todos.João Calhaz
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