uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
30 anos do jornal o Mirante
Trabalho pago com trabalho

Trabalho pago com trabalho

No Banco do Tempo em Alverca deposita-se e levanta-se horas

No Banco do Tempo de Alverca não há dinheiro. Levanta-se e deposita-se horas de trabalho e ajuda num princípio de solidariedade que tem ajudado várias famílias. Troca-se um serviço de canalizador por uma companhia para ir ao médico ou dão-se explicações a quem toma conta do cão ou do gato.

Edição de 31.05.2006 | Sociedade
A dona Maria do Céu precisava de fixar as roldanas do estendal da roupa, mas não sabia como fazê-lo. O senhor Erlindo ofereceu duas horas do seu tempo e facilmente fez o serviço que custava à dona Maria. Já a dona Aldina precisava de um canalizador para resolver um problema que tinha em casa. Como é uma leiga na matéria, o senhor Arlindo disponibilizou-se e numa uma hora e meia resolveu o problema à dona Aldina. Estes são apenas alguns dos serviços que se podem “comprar” na agência do Banco do Tempo em Alverca. Aqui há clientes, contas correntes, livro de cheques, depósitos, levantamentos, consulta de saldos e outras operações como em qualquer banco “normal”. Só não há dinheiro. As transacções são todas feitas em horas, troca-se tempo por tempo. A agência do Banco do Tempo de Alverca abriu há quase um ano e conta neste momento com 60 membros. O objectivo é “colmatar a falta de tempo, combater a solidão e reabilitar as boas relações de vizinhança”, explica a coordenadora da agência, Patrícia Contreiras. A meta final é que as pessoas deixem de se lamentar com o “nem tenho tempo para…”Com uma lista enorme de actividades, no Banco do Tempo é possível “comprar” ou “vender”, por exemplo, lições de línguas, reparações domésticas, cuidar de animais ou plantas, companhia para ir ao médico, andar de bicicleta ou ir ao cinema e refeições preparadas. Um leque definido a partir dos serviços que os membros oferecem.O sistema é simples. Cada membro tem um livro de cheques e uma conta, em que todos os movimentos são registados: tipo de serviço requisitado ou prestado, número de horas, o dia e o nome das pessoas envolvidas. Para solicitar um serviço, basta contactar a agência que identifica um membro que possa fazer o serviço pedido.Um dos princípios base do Banco do Tempo é que todas as horas têm o mesmo valor, não há serviços mais valiosos do que outros. O limite máximo de diferença entre horas recebidas e oferecidas é de 20 horas.Na agência de Alverca os serviços mais solicitados são as reparações domésticas, como arranjos de canalização, carpintaria ou electricidade. Trabalhos feitos por voluntários que em troca apenas requerem outros serviços. Mas na agência de Alverca são mais os que oferecem do que os que solicitam serviços. É o caso de Isalina Contenda, de 70 anos, que, tendo trabalhado com voluntária em vários locais, oferece diariamente os seus serviços, desde a culinária à ajuda doméstica, como fazer limpezas, ir ao supermercado ou ao correio. Domingos Quitumbo, de 25 anos, estuda de noite e precisava de algo que lhe ocupasse parte do dia. Por isso é ele que todas as manhãs, de segunda-feira a sábado, abre as portas da agência na Paróquia de S. Pedro de Alverca. ”Senti que tinha algo para dar e já ganhei muito”, diz. Em troca pelas horas que dá ao banco, Domingos recebe horas de aulas de inglês e horas de fisioterapia numa clínica. A heterogeneidade é uma das características do grupo que tem “conta” no peculiar banco. A média de idades ronda os 50 anos, com membros desde os 16 aos 78 anos, homens e mulheres, de diferentes classes sociais. A ideia de instalar uma agência do Banco do Tempo em Alverca partiu de Patrícia Contreiras. Contactou os actuais parceiros, a junta de freguesia, a Paróquia de S. Pedro e a Misericórdia de Alverca, e assim o projecto ganhou corpo. Para Patrícia, a grande vantagem do Banco do Tempo é “ajudar na conciliação do trabalho com a família”. Para si já pediu algumas horas para o pagamento das mensalidades na creche da filha e para a preparação de refeições congeladas. Em troca, a tradutora de profissão já deu algumas horas do seu tempo a resolver questões burocráticas. Sara Cardoso
Trabalho pago com trabalho

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...