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Um toque feminino no associativismo

Um toque feminino no associativismo

Mulheres conquistam cada vez mais espaço nas colectividades

Os filhos e o trabalho doméstico não são desculpa para a falta de participação no associativismo. Elas dominam as colectividades que representam.

Edição de 31.05.2006 | Sociedade
São duas horas da tarde no campo de futebol da Associação Recreativa do Porto Alto (Arepa), no concelho de Benavente. Enquanto os jogadores de futebol almoçam tranquilamente algures nos arredores da vila quatro mulheres estão reunidas no gabinete da direcção.Na pequena sala, que tem vista privilegiada para o relvado sintético, os papéis e documentos estão cuidadosamente separados. Sente-se um toque feminino na organização do departamento de futebol da Arepa, já conhecido como o “clube das mulheres”.A dirigente da secção, Marinela Inácio, 35 anos, empresária de uma firma de produção de leite, é uma das dinamizadoras da associação. A vacaria onde trabalha fica a dois passos do relvado. Tem um portão que dá directamente para o campo. Do local de trabalho até à sala da direcção são dois minutos. O tempo de rasgar o relvado.Não foi por acaso que o encontro ficou marcado para a hora do almoço. A tarde é passada a ordenhar as vacas. Apesar da intensa actividade na firma Marinela Inácio dedica-se de corpo e alma à associação. “Já penso mais no futebol do que nas minhas vacas. No outro dia até mandei um cheque da firma por assinar”, diz com humor.Aproximou-se do futebol por causa do filho, 15 anos, jogador do clube. Primeiro como delegada de jogo, depois como elemento da direcção. Um cargo que acumula desde Janeiro. Além da responsabilidade da direcção tem a seu cargo o trabalho de preparar a roupa dos jovens jogadores, organizar a ficha de jogo e de fazer os contactos com o árbitro. Marinela Inácio só consegue cumprir o papel de dirigente associativa porque tem um grande apoio familiar. A família mora perto e o jantar é feito em conjunto o que facilita o dia a dia.Ao fim de semana, quando não há tempo para reunir a família em casa para o almoço, come-se no campo de futebol. Que o diga Carla Coutinho, outra das dirigentes do departamento de futebol da Arepa, que é também delegada aos jogos.Tem 34 anos e trabalha com o marido numa oficina auto. Depois de levar os dois filhos, à escola de manhã dedica-se ao trabalho e à associação. O segredo é o apoio familiar. Sobretudo do marido, treinador de futebol e cozinheiro nas alturas mais aflitas.Foi também o treinador lá de casa, o marido, que puxou Cristina Brandão para o associativismo. A delegada de jogo da equipa sénior, 32 anos, professora do primeiro ciclo, e mãe de duas meninas de 11 e 3 anos, consegue gerir o tempo de forma equilibrada. Só lamenta que alguns homens não estejam preparados para aceitar uma mulher em campo. “No último jogo em Minde sai a meio para não me chatear”, desabafa. Mas os momentos gratificantes fazem esquecer os aspectos negativos da vida associativa. Só assim se pode explicar que Filomena Carvalho, 36 anos, comercial, tenha cumprido a temporada como delegada de jogo quase até ao final da gravidez.A barriga que ostentava até há um mês atrás – altura em que nasceu a Maria – não a impediu de cumprir a obrigação associativa. Nas próximas semanas a mãe da bebé e de um rapaz de 12 anos vai ausentar-se. Mas por pouco tempo. O gosto pela vida associativa corre-lhe nas veias. Tal como a Dina Patrício, 28 anos, residente em Vale do Paraíso, Azambuja. A professora de Inglês é uma das dirigentes do rancho folclórico da freguesia e da associação desportiva e recreativa “ADR O Paraíso”.Foi a primeira mulher a ter assento na assembleia da associação desportiva há quatro anos. “Na altura foi um escândalo”, recorda Dina Patrício que ainda hoje se sente alvo de alguns olhares mais conservadores. O trabalho como professora deixa-lhe tempo para se dedicar ao associativismo. “Temos sete noites por semana. Se eu dedicar duas ao rancho e ao ADR ainda fico com cinco para a família”, diz a professora que vive com os pais.No rancho Dina Patrício trabalha ao lado da directora do grupo de folclore, Filomena Gonçalves. A reformada do escritório das OGMA, 58 anos, ligou-se ao associativismo para ocupar o lugar do marido, anterior dirigente do grupo, já desaparecido.A decisão não foi difícil. Mais dolorosa foi a aproximação às recordações. Hoje comanda de corpo e alma os destinos do grupo. Com a intensidade de uma verdadeira paixão.Ana Santiago
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