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A bailarina exilada por amor

Lydie Carnier é professora de dança na Sociedade Filarmónica do Cartaxo

A professora de dança Lydie Carnier foi bailarina em França e só falhou a Ópera de Paris por causa das dificuldades financeiras do pós-guerra. Há 13 anos deixou tudo e rumou ao Cartaxo. Atrás do grande amor da sua vida.

Edição de 11.10.2006 | Cultura e Lazer
Lydie Carnier entra na sala forrada de espelhos da Sociedade Filarmónica Cartaxense. É ali que 25 meninas aprendem ballet. Sob as instruções rígidas da professora e ex-bailarina francesa que há 13 anos deixou o país natal para rumar à cidade ribatejana.Foi o grande amor da sua vida que a trouxe ao Cartaxo. Lydie Carnier trabalhava como professora assistente de dança em França. O actual marido, Arlindo dos Reis, era proprietário de um restaurante. Os dois cruzaram-se numa noite iluminada em Nice.A oportunidade de mudar a vida de França para Portugal surgiu durante uma viagem de lazer ao Cartaxo. “Vi um espectáculo da Rainha das Vindimas e achei que aquilo era tudo menos ballet”, recorda Lydie Carnier. Em 1993 o lugar de professora de ballet da Sociedade Filarmónica do Cartaxo mas foi deixado vago e a ex-bailarina convidada a ocupar o cargo.O primeiro ano funcionou com cursos intensivos de uma semana todos os meses e muitas viagens à mistura. Os períodos foram-se alargando até que Lydie Carnier deixou França, um filho já adulto, pai e mãe e veio juntar-se definitivamente ao companheiro e à paixão de sempre da sua vida – a dança.Hoje os seus dias são preenchidos com as aulas e “Giselle – A Loja da Bailarina”. Que a dança não chega para subsistir, explica Lydie Carnier num português de sílabas carregadas. Com palavras francesas à mistura. É impossível não perceber as origens da professora trocando duas frases de uma conversa de circunstância.A língua nunca foi um entrave à comunicação entre aluna e professora. Os termos do ballet clássico são franceses. “D. Luís XIV foi o primeiro bailarino”, lembra para vincar a importância da língua mãe.Além de dança e francês as meninas também aprendem história. Para fazer ballet não basta dominar os passes correctamente, assegura a professora que tem por hábito distribuir informação sobre a arte da dança.A disciplina é outra das regras a aprender assim que se entra na sala. Esta foi a maior dificuldade que encontrou no seu trabalho. Os dois correctores, feitos de cana, que ajudam a endireitar as costas e a corrigir a posição da barriga, estão esquecidos a um canto da sala. Os pais portugueses não gostam de demasiadas regras. Embora a doutrina que ensina seja exigente.Lydie Carnier chorou muitas lágrimas para aprender os segredos da dança. Os pés ensanguentados sobre os sapatos de pontas. Hoje são de tecido fino e a disciplina é mais branda. Mas o rigor e o método da professora sentem-se na forma firme como ainda fala às alunas. “Demi-pliê, pliê, degadé”, explica num tom quase cantado a professora, que aos 57 anos ainda mantém a elasticidade de outros tempos. Ana Santiago

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