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A menina do bairro operário

Edição de 11.10.2006 | Entrevista
Como era o Entroncamento da sua infância?A linha-férrea separava dois Entroncamentos distintos. Funcionava como uma espécie de fronteira social. O Entroncamento de cima (zona Norte) era o Entroncamento operário. O de baixo (zona Sul) era o das pessoas que viviam melhor. Das classes sociais mais elevadas. Era a zona das vivendas.Era a sua zona?Não. Eu sou do Bairro Novo, filha de um operário. O Bairro Novo apanhava a rua Elias Garcia, a Verdades Miranda ou Rua do Poço Novo, a 1º de Dezembro. Qual foi a sua escola primária? Andei na escola da serração, no agora bairro 1º de Maio, a seguir ao edifício que agora é sede da Filarmónica. Na altura a escola tinha apenas um piso. Eram duas salas. E era uma escola só de meninas. A dos rapazes era a escola de baixo. Lembro-me que usávamos umas batas brancas. Um outro natural do Entroncamento, António Avelar de Pinho, definiu a terra, numa entrevista a O MIRANTE, com uma frase: “Pó e calhandrice”.Ele é mais novo que eu e terá outras memórias. Devia haver muito pó mas eu não tenho ideia do pó. Lembro-me das ruas enlameadas. Das poças de água. Recordo-me perfeitamente de no Inverno irmos para a escola de botins, exactamente por causada altura da água. A rua que é hoje a 1ºde Maio, na altura em que chovia, só tinha dois carreirinhos muito estreitinhos, laterais, por onde se podia andar. Nós, os miúdos, como tínhamos botins é óbvio que íamos pelo meio das poças de água.Calculo que não houvesse muito trânsito?Havia trânsito de carroças. Automóveis, só me lembro de dois. O do professor Santana, que era marido da nossa professora e o de um tio meu que tinha uma fábrica de cortiça aqui no Entroncamento. Primeiro ele teve uma charrete e depois comprou o automóvel. Tinha motorista e eu às vezes via-o passar quando ia a caminho da escola.O seu pai era operário da CP?Era soldador. O meu pai nasceu nas Vaginhas. Quem veio do Alentejo para aqui foi o meu avô paterno. Veio de Castelo de Vide. A minha avó era de Santo António das Areias (Marvão). Naquele tempo as Vaginhas não pertenciam ao Entroncamento. Tenho a certidão de nascimento dele e não diz que nasceu no Entroncamento. O Entroncamento nem sequer era concelho.Nem freguesia. Quando o meu pai nasceu, em 1910, o território actual pertencia a duas freguesias. Estava dividido pelo ribeiro de Santa Catarina e não pela linha de caminho de ferro. Era o ribeiro que era limite de dois concelhos. As Vaginhas pertenciam à freguesia da Atalaia, concelho da Barquinha. O Bairro Novo pertencia à Freguesia de Santiago, concelho de Torres Novas. Quando eu nasci o Entroncamento já era freguesia mas pertencia ao concelho da Barquinha. Só em 1945 é criado o concelho do Entroncamento.A sua mãe era daqui? Não, era de Vale dos Ovos, concelho de Tomar. Naquela altura a maior parte das mulheres não trabalhava. Estava em casa. A minha era bordadeira. Era uma maneira de ajudar o orçamento familiar. Mas trabalhava em casa. Que memórias tem desses tempos? Uma das coisas mais engraçadas que me recordo do meu tempo de miúda, era o meu pai a falar dos colegas porque não os designava pelos nomes mas pelas alcunhas. Havia o Sai Cedo, o Braço de Trabalho. O meu pai era conhecido por Zé Sã, Abreviatura de José Assunção. Eu era a Sãzita, obviamente. Nas noites de verão, na rua Elias Garcia, vinha toda a gente para a rua com umas cadeirinhas pequenas e uns bancos e ficavam ali à conversa e os miúdos a brincar.Não havia televisão, nem Internet.Nesses serões as pessoas contavam histórias. Histórias de espíritos, bruxas, lobisomens. Eram coisas que podiam meter impressão aos miúdos mas deixavam-nos ouvir. Em casa também lhe contavam histórias? Quem lhas contava? Era uma tia-avó. Irmã da minha avó. Contava-me muitas histórias. Histórias que a avó dela lhe contava. Aqui há tempos fui encontrar história muito semelhante a uma que ela me contava, na aldeia do Feijão, que fica entre Arganil e Pampilhosa. Um padre escreveu “As Histórias do Juiz do Feijão” e uma delas era igual à que essa minha tia-avó me costumava contar. Devia haver muito pó mas eu não tenho ideia do pó. Lembro-me das ruas enlameadas. Das poças de água. Recordo-me perfeitamente de no Inverno irmos para a escola de botins, exactamente por causada altura da água. A rua que é hoje a 1ºde Maio, na altura em que chovia, só tinha dois carreirinhos muito estreitinhos, laterais, por onde se podia andar. Depois da primária foi estudar para onde?Fui para o Liceu Sá da Bandeira em Santarém. Saía muito cedo de casa. Ia num comboio às sete e meia da manhã. E chegava muito tarde a casa. Não era como hoje que há comboios praticamente de hora a hora. As aulas acabavam por volta das cinco da tarde e eu só tinha um comboio que chegava ao Entroncamento por volta das oito. Ia a pé da estação para o Liceu. Nos dias de chuva a minha mãe dava-me dinheiro para a camioneta. Quinze tostões. Levava o almoço num cestinho. Havia ao lado da cozinha uma divisão com mesas e bancos. Uma espécie de refeitório. Os almoços eram aquecidos pelas cozinheiras e almoçávamos ali. Era a única estudante do Entroncamento a ir para Santarém?No primeiro ano ia sozinha. Havia um rapaz chamado Estêvão que também estudava em Santarém, mas já andava no sétimo ano. Depois formou-se em medicina. Era filho de um ferroviário conhecido por Rei do Cebolo. Tinha uma tira de terreno muito extensa onde semeava cebolo que vendia o que lhe dava a possibilidade de ganhar mais um dinheiro para além do que recebia como ferroviário que devia ser muito pouco. Os ferroviários ganhavam mal.Mas havia outros jovens do Entroncamento a estudar.Sim, nos anos seguintes já havia mais mas no primeiro ano era só eu e esse rapaz. Nós andávamos no Liceu em Santarém, os outros que tinham mais posses andavam no Externato Mouzinho de Albuquerque aqui no Entroncamento e no Colégio de Tomar. Mas o Liceu Sá da Bandeira era um excelente Liceu. Gostei muito de lá andar. Tive óptimos professores, bons colegas, boas turmas. Depois do liceu foi para logo para a Universidade? Fiz um curso de dois anos, que foi dos primeiros cursos superiores curtos, digamos assim. Houve reformas naquela época e como se quis criar o ciclo preparatório para alargar a escolaridade obrigatória até ao ciclo preparatório, houve no pensamento das pessoas que então estavam no governo a ideia de formar professores para aquele nível. E foram criados dois cursos. Um para letras e outro para ciências. Eu fui tirar o de letras. Era filha de um operário, os meus pais não tinham dinheiro para mais. Para eles, mesmo assim, foi um esforço muito grande.

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