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Entroncamento meu amor

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Manuela Poitout e as histórias de uma terra “sem história”

Foi professora mas agora é estudante. Quer tirar o curso superior de história do Entroncamento. Tudo começou no dia em que se soube que ia ser demolido o prédio Paris, um velho chalé que ela se tinha habituado a ver todos os dias. Ao firmar o abaixo-assinado contra a demolição do imóvel, Manuela Poitout fez uma jura de amor eterno à terra onde nasceu. Quem pensa não ser possível haver bairrismo numa terra sem castelo nem catedral, é porque ainda não conhece esta mulher.

Edição de 11.10.2006 | Entrevista
Quando se fala no Entroncamento pensa-se numa terra nova que nasceu com o caminho-de-ferro. Isso não faz sentido. Existem aqui vestígios pré-históricos. Há quatro estações arqueológicas identificadas e registadas pelo IPPAR (Instituto Português do Património Arqueológico). Vieram cá técnicos estudá-las. Duas no Bonito, uma no Formigão e outra no Casal do Conde. Eu referia-me a uma história mais recente. Há ideia que o caminho-de-ferro chegou e não havia aqui nada. Diz-se muitas vezes que o Entroncamento era um local desértico e pantanoso. Não é assim. Com o caminho-de-ferro começa uma outra história deste local mas existiam aqui vários casais dispersos. Vaginhas, Gouveias, etc. Não eram povoados assinaláveis mas havia grandes proprietários de terras situadas nesta zona. Não eram terrenos baldios. E a prova é que a companhia Real dos Caminhos-de-Ferro teve que negociar com particulares.Como é que o seu nome surge sempre quando se fala da história do Entroncamento? Afinal estamos perante uma professora de Português e Francês. Alguém que não tem formação académica na área de história.Eu sou da antiga área de românicas.De onde vem esta vontade de conhecer a história do Entroncamento?A certa altura, quando faleceu o meu sogro, (Eugénio Dias Poitout) que foi presidente da Junta de Freguesia do Entroncamento e Presidente da Câmara Municipal vi-me com um arquivo documental e fotográfico nas mãos e tive vontade de aprofundar os meus conhecimentos sobre a terra onde nasci. E antes disso? Sempre gostei de saber coisas sobre o Entroncamento. Foi aqui que nasci e vivi e é natural que quisesse saber coisas sobre o Entroncamento mas não era algo que me ocupasse muito tempo. O que verdadeiramente despoletou o meu interesse pela terra foi a demolição do prédio Paris, um chalé que existia em frente à estação de caminho-de-ferro. Foi a primeira vez que eu me vi confrontada com o desaparecimento de algo que me habituara a ver todos os dias naquele local. Algo que me dizia alguma coisa. Houve uma grande discussão na altura sobre a reabilitação do edifício ou a sua demolição. Era um chalé estilo francês que foi vendido pelos herdeiros da família Paris à Câmara do Entroncamento na altura em que era presidente da câmara o Afonso Serrão Lopes. O destino era a demolição, segundo a imprensa da época. No mesmo local seria construído um prédio de 4 andares. Não é claro para mim porque é que uma autarquia compra um edifício para ser demolido e para construir habitação. Era melhor o negócio ser feito entre herdeiros e empreiteiro. Estávamos em 1979.Passaram-se alguns anos até o prédio ser demolido. O prédio só foi demolido nos anos oitenta. Não me recordo exactamente em que ano. O processo passa para as mãos do Fanha Vieira que foi o Presidente que se seguiu. E esse senhor enfrenta uma dificuldade. Sem a câmara ter pedido o prédio Paris aparece classificado como imóvel de interesse concelhio. Ou seja, não podia ser demolido. A câmara vê-se entre a espada e a parede. Nessa altura o Entroncamento divide-se. Circulou um abaixo-assinado pedindo a recuperação do prédio que eu subscrevi. A partir daí comecei a interessar-me pelo património do Entroncamento. Acha possível que alguém que não tenha qualquer ligação ao Entroncamento considere a cidade bonita e se apaixone por ela a ponto de ir morar para lá apenas por isso? O Entroncamento faz parte da minha vida. É a minha terra. E eu faço parte da vida do Entroncamento. Há um entrosamento. Quem vai viver para o Entroncamento justifica normalmente a sua opção com a centralidade, com a existência de uma estação de caminho-de-ferro ou com o facto de as casas serem mais baratas, por exemplo. Eu conheço pessoas que vieram viver para o Entroncamento por gostarem do património ferroviário, por exemplo. Embora nos últimos anos se tenham verificado mudanças significativas, o Entroncamento foi muitos anos um bom exemplo do caos urbanístico. Não é crítica do Entroncamento.Claro que sou. Também costumo dizer que há coisas no Entroncamento que só teriam solução se houvesse um tremor de terra. Mas isso é demasiado radical.Que património ainda há para preservar no Entroncamento? Ainda temos muita coisa que pode ser preservada, recuperada. A preservação das memórias é importante para os vindouros. A começar pelo património ferroviário que é o nosso maior e mais importante património. Já estamos a falar no Museu Nacional Ferroviário?Museu Nacional, exactamente. Trata-se de um Museu Nacional e não de um Museu local. Não é um Museu do Entroncamento. Diz respeito a um país inteiro. Um Museu criado por uma Lei da Assembleia da República em 1991 e por unanimidade. Mas que quinze anos depois ainda não foi concretizado. É um Museu de Santa Engrácia? Para haver um Museu Nacional Ferroviário tem que haver empenhamento do poder político. Do governo. Os sucessivos governos não se mostraram empenhados neste Museu Ferroviário, à excepção do Governo Santa Lopes, é curioso. Foi um Governo com um tempo de vida muito curto mas foi nessa altura que foi criada uma Fundação e que foi apresentado um projecto, embora megalómano.O que mudou?Acabou com a Comissão Instaladora que não tinha qualquer autonomia. Nem administrativa nem financeira. Agora as coisas andam muito lentamente por razões evidentes. Razões financeiras. Mas pela primeira vez o Museu Ferroviário tem uma direcção com autonomia própria. Foi dado esse passo em frente.Durante os últimos quinze anos não poderia ter sido aberta, pelo menos, uma secção do Museu Nacional no Entroncamento? Qualquer coisa para amostra? Afinal se o Museu Nacional vai integrar as secções já existentes…As secções fazem parte do Museu porque as autarquias não abdicam delas. Esta solução de um Museu com secções em vários pontos do país secções é algo muito português. Tem a ver com o nosso tradicional bairrismo? Com o facto de não termos uma visão global das coisas? Afinal cada terra quer ter o seu pavilhão, a sua piscina, o seu centro cultural. Porque não o seu Museu?Que eu saiba não há secções museológicas deste género noutros países. A ideia é sempre juntar o maior número possível de peças do património ferroviário e de as enquadrar devidamente num determinado local. E quase todos os países têm o seu Museu Nacional.Será possível concretizar o Museu? Eu acredito que sim mas tem que haver vontade política. O Entroncamento é uma terra que merece ser a sede de um Museu Nacional Ferroviário. Tem um património ferroviário quase único. E não me refiro só às locomotivas que estão expostas naquelas condições. Refiro-me aos bairros ferroviários – Camões, Vilaverde, Boneco – à Rua da Estação. À triagem, que é única. À central que fornecia energia eléctrica para a estação. Há todo um conjunto que faz do Entroncamento um local privilegiado. O Entroncamento não tem Museu e cada vez tem menos comboios a parar na sua estação. Isso não pode servir de argumento para não avançar com o Museu? Faz sentido fazer um Museu numa terra onde já nem param os comboios?Alguém tem que pensar nesse problema. Na verdade, se os comboios estão a deixar de parar cá nem sequer faz sentido continuar a falar do Entroncamento como a capital dos comboios.Um Museu não é algo que mobilize uma população.Em regra não. As pessoas não consideram muito importante para as suas vidas a existência de um Museu. Mas O Museu Nacional Ferroviário é importante para o país e a ser feito é no Entroncamento. Trata-se de uma questão de preservação do nosso património. Do património ferroviário do país. E trata-se da preservação da identidade de uma terra. Da nossa memória. Alberto Bastos
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