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O último engraxador de Vila Franca

Luís Filipe Ribeiro ganha a vida numa actividade em vias de extinção

Em Vila Franca de Xira ele é já o único. Atende uma média de três clientes por dia, não chegando a fazer cinco euros, porque hoje já “ninguém liga aos sapatos”.

Edição de 11.10.2006 | Identidade Profissional
Numa das esquinas da rua Serpa Pinto, em Vila Franca de Xira, Luís Filipe Ribeiro espera ansiosamente por “sujar as mãos”. São quatro da tarde e eis que chega finalmente o primeiro cliente do dia. “Ó chefe, pode engraxar aqui os meus sapatos?”. O engraxador arregaça as mangas e começa o processo.Depois de colocar a tira amarela que protege as meias da graxa, Luís Filipe Ribeiro começa por escovar os sapatos “para tirar o pó”. O passo seguinte é passar a tinta e escovar, com os cotos. Chega a vez da pomada e, finalmente, com um pano (um pedaço de umas calças velhas) puxa o lustro aos sapatos. “Ora aí está”, comunica o engraxador ao cliente com a satisfação do dever cumprido. Em 10 minutos, os sapatos pretos baços que chegaram às mãos de Luís Filipe passaram a um reluzente par.O engraxador guarda o pagamento – 1,5 euros – e volta à posição inicial e aguarda pelo próximo. Em média atende três clientes por dia, apesar de ser o único engraxador da cidade. Luís Filipe Ribeiro não compreende porque está a cair em desuso engraxar o calçado. “Hoje ninguém liga aos sapatos”, diz resignado. Além disso há também quem ache caro. “Às vezes perguntam quanto é e quando digo o preço dizem que é muito caro e já nem querem”, lamenta.A maioria dos clientes de Luís Filipe Ribeiro é homem e, normalmente, “pessoal de trabalho”. “Só tive aqui uma senhora que veio engraxar as botas, de resto é tudo homem”. Clientes habituais também são poucos. Apenas três que passam uma vez por mês. Um deles é um “senhor engravatado” que lhe pediu agora um trabalho diferente: tingir os sapatos castanhos de preto. São quatro euros extra que vêm ajudar a compor a carteira do engraxador. O engraxador iniciou-se na actividade há cerca de 20 anos, quando ficou sem o emprego na Companhia das Lezírias onde começou como aguadeiro quando tinha 15 anos. Os amigos engraxadores arranjaram-lhe uma caixa e o material e ele começou a aprender com eles. Teve como professores engraxadores conhecidos de Vila Franca como o Lucas, o Frederico, o Galo ou o Zé Encarnado.Na altura “chegámos a ser 10 aqui na rua e havia trabalho para todos”, recorda. Depois uns “morreram outros foram desistindo” e hoje está sozinho a engraxar os sapatos dos vilafranquenses.Por a profissão não dar dinheiro, há cerca de 16 anos Luís Filipe Ribeiro trocou as ruas pela construção civil e pelo comércio. No entanto, há cerca de um ano deixou de conseguir empregos nessas áreas e voltou a ser o engraxador de Vila Franca. Mais uma vez contou com a boa vontade de terceiros para fazer uma caixa e comprar os materiais para exercer a sua função. Os parcos “tostões” que vai ganhando servem-lhe apenas para comer. Tem sido assim nos últimos anos: ganhar somente para comer, porque desde há dez anos que vive na rua. “Nunca tenho dinheiro para um quarto”, lamenta.Entre um olhar cabisbaixo e um sorriso de confiança, o engraxador confessa esperar que os próximos dias tragam mais pessoas até à sua caixa na rua Serpa Pinto. “É que com as largadas de toiros as pessoas ficaram com os sapatos todos sujos”. Sara Cardoso

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